Como trabalhar a virtude da obediência com as crianças?

Clique aqui para ler a história “Almanzo e os potrinhos” para trabalhar a virtude da Obediência.

Estamos começando por aqui o Projeto Virtude do Mês e agora em agosto vamos falar sobre a virtude da… Obediência!

O engraçado é que inicialmente, no Programa Valores e Virtudes, eu havia escolhido apenas 12 virtudes – e Obediência não estava entre elas.

Sinceramente, acho que isso aconteceu porque eu tinha receio de falar sobre submissão à autoridade quando tudo à nossa volta prega que as crianças precisam aprender a questionar, inovar, pensar fora da caixa e assim vai…

No meio escolar, para dizer a verdade, obediência é um daqueles assuntos proibidos. Quem vai falar sobre o problema das crianças que não obedecem aos professores em um contexto em que a educação tradicional é crucificada e o professor deve ser apenas um mediador, um condutor, e nunca alguém que se destaque mais do que a criança, que agora é a “protagonista do processo de aprendizagem”?

A questão é que depois de alguns meses trabalhando o Programa Valores e Virtudes com as crianças eu resolvi tomar coragem, e junto com outras três virtudes, acrescentei a bendita virtude da Obediência. E desde que comecei a versão para famílias, tenho ouvido muita gente comentando que essa é, na verdade, uma das áreas mais desafiadoras de se trabalhar com a criança.

Agora, antes de começar a enviar para vocês as dicas para trabalhar essa virtude com as crianças durante esse mês, quero fazer uma pergunta bem franca:

Você realmente pensa que as crianças deveriam te obedecer?

Essa foi a pergunta que eu fiz a uma professora a quem eu orientei como professora-tutora e que tinha muita dificuldade com o que nós chamamos de “controle da sala”, ou seja, a habilidade de ensinar sem que as crianças passem por cima de você.

Um dia, assistindo um pouco a aula dela, me ocorreu que na verdade ela não se considerava alguém a quem as crianças deveriam obedecer. É como se ela se sentisse insegura da sua posição diante deles.

E o grande problema é que as crianças – e adolescentes, e adultos… – sabem EXATAMENTE quando estão diante de alguém a quem devem obedecer, simplesmente por conta da postura que essa pessoa assume, ou do quanto ela transmite ser uma autoridade.

Sim, existe uma parte da desobediência que é da criança mesmo – por isso trabalhamos ensinando-as a cultivar a virtude da obediência. Mas existe outra parte que é do adulto – a sua autoridade.

É por isso que ouvimos tanto:

“Não tem jeito, ela só obedece o pai”, ou

“Essa sala é uma indisciplina só, mas quando entra o professor X eles ficam comportados que parecem outros alunos”.

Quando percebemos isso, temos sempre duas alternativas: uma é ficam arrumando justificativas externas e achar que a criança só obedece a A ou B, e não a mim. A outra é pensar: o que A e B fazem que eu não faço? Como posso me tornar a pessoa a quem as crianças obedecem?

Para isso, a primeira coisa que precisamos é pensar na pergunta que eu coloquei logo acima:

Você realmente pensa que as crianças deveriam te obedecer?

Digo isso porque não adianta trabalhar estratégias diversas se você se sente inseguro ou insegura de sua autoridade diante das crianças. Antes de tudo é isso que precisa ser resolvido.

Mas por que assumir uma postura de autoridade é tão difícil? Creio que por algumas razões. Vou deixar quatro razões aqui para que você considere qual é a sua situação:

1º – Desejo de agradar às pessoas/ medo do que as pessoas pensam:

Se você lida com algum tipo de insegurança que faz com que você tenha medo de desagradas as pessoas, certamente será mais difícil exercer autoridade nos dias de hoje, porque, como eu disse no início, vivemos em um tempo em que o conceito de autoridade foi deturpado e o politicamente correto é ser legal. Então para você pode ser difícil ser aquela mãe/ pai/ professor que exige autoridade por medo das pessoas dizerem que você é radical demais, que é exigente demais, ou, pior, que está traumatizando seu filho ou aluno e impedindo que ele cresça emocionalmente saudável.

2º – Desejo de agradar à criança/ medo de perder o afeto da criança:

Talvez sua dificuldade não seja com o que as outras pessoas pensam, mas o medo de que a criança deixe de gostar de você, ou medo de que sua autoridade crie uma distância afetiva entre você e a criança. Muitas vezes as crianças, frustradas por verem sua vontade contrariada, usam frases como “você não me ama”, ou “nunca mais vou gostar de você”, ou “minha mãe deixa fazer, ela é mais legal”. É claro que isso tudo é dito “da boca para fora” e se trata apenas de tentativas da criança de fazer com que você faça o que ela quer, mas muitas vezes essas frases nos abalam e nos fazem temer perder o carinho da criança ou ser menos amado por ela do que outras pessoas mais “legais”.

3º – Medo de fazer mal para a formação intelectual ou moral da criança:

Talvez você não se importe tanto com o que os outros dirão, nem se deixe levar pelas pequenas chantagens da criança, mas se preocupe em agir de forma que atrapalhe a formação moral ou intelectual da criança. Medo de ser autoritário e com isso tolher a criatividade da criança ou torná-la uma criança passiva que não sabe pensar.

4º – Não se considerar apto a exercer sua função como pai, mãe, professor ou tutor:

Muitas vezes a insegurança faz com que uma pessoa se sinta despreparada ou mesmo incapaz de ensinar ou educar a criança como deveria. Quando isso acontece você passa a questionar tudo o que faz e como não tem certeza se está agindo da forma correta, qualquer argumento é o bastante para fazer com que você volte atrás no que já tinha dito ou desista de afirmar sua autoridade diante da criança.

Bem, se você lida com alguma dessas questões, eis alguns pontos que você deveria anotar para sempre voltar a eles quando precisar:

1º – NÃO TENHA MEDO DO QUE AS PESSOAS PENSAM. Uma coisa é buscar, ouvir conselhos sábios e acatá-los; outra é viver tentando agradar às pessoas. Lembre-se que educar é uma missão; ou seja: uma incumbência que você recebeu e pela qual prestará contas. A mesma sociedade que reclama porque você é radical demais com seu filho é aquela que dirá: gente, que criança mais mal educada! Então decida em seu coração fazer o que é certo e aprenda a conviver com pessoas dizendo que você é chata, ou exigente, ou todos aqueles termos que as pessoas usam quando querem te fazer sentir-se mal por ter coragem de fazer o que elas não fazem.

2º – NÃO TENHA MEDO DE PERDER O CARINHO DA CRIANÇA. Quando você age com autoridade a criança sabe que você está agindo por amor. E mesmo quando eles reclamam e tentam manipular suas emoções, no fundo espera que você permaneça firme para que ela se sinta segura de que você sabe o que está fazendo. E ela vai admirar mais você, vai continuar amando como sempre amou e quando você não estiver por perto (acreditem, já vi isso muitas vezes em sala de aula), vai dizer para os colegas com tom de orgulho sobre o quanto você é firme e não admite desrespeito.

3º – NÃO TENHA MEDO DE ATRAPALHAR O DESENVOLVIMENTO INTELECTUAL DA CRIANÇA. Criatividade não tem NADA que ver com insubmissão. Como já falei muitas vezes no Curso Ensinar a Estudar, a capacidade de aprendizagem está diretamente relacionada com a capacidade de submeter-se a regras e à autoridade. Antes de aprender a criar a pessoa precisa adquirir repertório, entender a lógica das coisas, ouvir quem sabe mais. Não se deixe levar pelas ideologias modernas que tentam fazer parecer bonito uma criança que questiona tudo e a todos. Essa terrível mentira de que é melhor ser questionador do que ser obediente tem destruído não apenas a moral das crianças como seu intelecto.

4º – NÃO BASEIE SUA AUTORIDADE EM SEU NÍVEL DE HABILIDADE, CONHECIMENTO OU EXPERIÊNCIA. Lembre-se que você é a pessoa a quem Deus deixou como responsável por conduzir e ensinar a criança. Você é a pessoa que já viveu muitos anos mais do que a criança e que sabe o que é melhor para ela. Você precisa convencer a si mesmo de que você é o adulto, não um amiguinho. Você pode não saber tudo e ter muitas dúvidas, mas você CERTAMENTE sabe melhor do que ela, que ainda é uma criança.

5º – Acima de tudo, REAFIRME SUAS CONVICÇÕES SOBRE O QUE É EDUCAR UMA CRIANÇA. Se você de fato crê no que a Bíblia diz, não abra espaço em sua mente para teorias e ideias que partem do princípio de que a criança é um poço de bondade, porque não é. A criança precisa de quem a corrija para que seu caráter e seu coração sejam a cada dia moldados conforme o que Deus a criou para ser. Busque a sabedoria de Deus para saber como agir quando você estiver em dúvida, mas não se deixe levar pelas teorias que tentam justificar o comportamento da criança dando nomes bonitos aos vícios, falhas de caráter e pecados.

Essa convicção interna da autoridade que você recebeu de Deus vai transparecer no tom de voz que você usa com a criança, nos limites que você estabelece e no quanto você admite ou não que a criança te trate com respeito. Sim, precisamos ensinar a criança a praticar a virtude da obediência, e os desafios que vocês receberão este mês têm esse objetivo. Mas trabalhar internamente suas próprias convicções quanto à sua própria autoridade é, como diz minha mãe, “meio caminho andado” para conseguir que as crianças obedeçam.

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Um abraço,

Katarine Jordão