Almanzo e os Potrinhos

Trecho extraído e adaptado do livro “O jovem fazendeiro”, de Laura Ingalls Wilder

Almanzo era um garotinho que vivia em uma fazenda com família. Ali, cada um tinha suas responsabilidades e tarefas a cumprir; mesmo Almanzo que tinha apenas oito anos. Uma de suas tarefas era fazer a limpeza dos estábulos onde ficavam os cavalos – os animais que Almanzo mais amava e que sonhava um dia poder cuidar.

Quando Almazon entrava nos celeiros, passava sempre pela pequena porta do Curral dos Cavalos. Gostava de cavalos. Ali ficavam eles, em suas baias espaçosas, limpos, lustrosos, de um marrom-brilhante, com suas compridas caudas e crinas negras.

Os cavalos trabalhadores, tranquilos e prudentes ruminavam placidamente o seu feno. Os de três anos enfiavam os focinhos através das grades e pareciam murmurar entre si. Então, suavemente, fungavam um sobre o pescoço do outro; um deles fingia morder e todos relinchavam, rodopiavam e pulavam, brincando. Os cavalos velhos viravam a cabeça e olhavam como avós para os netos. Mas os potros corriam animados, em suas patas magras, olhando espantados.

Todos conheciam Almanzo. Esticavam as orelhas e seus olhos brilhavam suavemente quando o viam. Os de três anos avançavam sofregamente e enfiavam as cabeças para fora a fim de acariciá-lo com o focinho. Seus focinhos, com alguns poucos pelos duros, eram macios como veludo, e nas testas os pelos finos e curtos eram lisos como seda. Os pescoços arqueavam-se altivamente, firmes e redondos, e as crinas negras caíam sobre eles como pesadas franjas. Era possível passar a mão ao longo daqueles pescoços firmes e curvados, sentindo o calor que havia por baixo da crina.

Mas Almanzo dificilmente se atrevia a fazê-lo. Não lhe permitiam tocar os belos cavalos de três anos. Não podia entrar em seus estábulos nem mesmo para limpá-los. Ele só tinha oito anos e o pai não o deixava lidar com os cavalos jovens ou com os potros. O pai ainda não confiava nele, porque os potros e os cavalos novos, não amansados, tornam-se não adestráveis com muita facilidade.

Um menino que não entende do assunto podia assustar um cavalo novo, ou aborrecê-lo, ou mesmo bater nele, e isso o estragaria. Aprenderia a morder, a pular e a odiar as pessoas, e então nunca seria um bom cavalo.

Almanzo entendia do assunto; nunca assustaria ou magoaria nenhum daqueles belos potros. Sempre se mostraria tranquilo, gentil e paciente; não espantaria um potro nem gritaria para ele, nem mesmo se lhe pisasse o pé. Mas o pai não acreditava nisso.

Almanzo, portanto, só podia ficar olhando com vontade para os ansiosos cavalos de três anos. Apenas lhes tocava os focinhos aveludados e depois se afastava rapidamente deles e enfiava seu camisolão de celeiro por cima de suas boas roupas de escola para começar a trabalhar.

O jovem fazendeiro – Laura Ingalls Wilder
Edições Best Bolso

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Selecionei esse trecho do livro como história para iniciar a conversa com as crianças ao ensinar sobre a Virtude da Obediência, como sugerido no nosso Projeto Virtude do Mês.

Depois de ler a história é interessante conversar com as crianças:

  • Por que Almanzo não podia entrar para brincar e nem mesmo tocar nos potrinhos e cavalos jovens?
  • Por que o pai de Almanzo não permitia que ele se aproximasse dos potrinhos, mesmo Almanzo já sabendo o que não deveria fazer?
  • Mesmo achando que sabia como agir, por que Almanzo não entrou no estábulo dos cavalos jovens?

O pai de Almanzo sabia que se um daqueles potrinhos ou cavalos jovens se tornasse não adestrável a família teria um grande prejuízo. Almanzo tinha certeza de que ele sabia agir do jeito certo, mas muitas vezes nós achamos que sabemos algo que ainda não sabemos bem. Quando os pais dizem o que você deve fazer ou não fazer, os filhos precisam confiar que os pais sabem o que estão dizendo. Eles já foram crianças e adolescentes também, e eles sabem como as coisas são. Além disso, Deus mesmo é quem dá sabedoria aos pais para tomar as decisões quanto ao que é melhor para os filhos. É por isso que Ele deixou como mandamento que os filhos obedeçam aos pais. Quando uma criança é obediente, fazendo aquilo que seus pais dizem, Deus abençoa a sua vida e a ajuda a crescer cada vez mais sábia e feliz.

Katarine Jordão

Como trabalhar a virtude da obediência com as crianças?

Clique aqui para ler a história “Almanzo e os potrinhos” para trabalhar a virtude da Obediência.

Estamos começando por aqui o Projeto Virtude do Mês e agora em agosto vamos falar sobre a virtude da… Obediência!

O engraçado é que inicialmente, no Programa Valores e Virtudes, eu havia escolhido apenas 12 virtudes – e Obediência não estava entre elas.

Sinceramente, acho que isso aconteceu porque eu tinha receio de falar sobre submissão à autoridade quando tudo à nossa volta prega que as crianças precisam aprender a questionar, inovar, pensar fora da caixa e assim vai…

No meio escolar, para dizer a verdade, obediência é um daqueles assuntos proibidos. Quem vai falar sobre o problema das crianças que não obedecem aos professores em um contexto em que a educação tradicional é crucificada e o professor deve ser apenas um mediador, um condutor, e nunca alguém que se destaque mais do que a criança, que agora é a “protagonista do processo de aprendizagem”?

A questão é que depois de alguns meses trabalhando o Programa Valores e Virtudes com as crianças eu resolvi tomar coragem, e junto com outras três virtudes, acrescentei a bendita virtude da Obediência. E desde que comecei a versão para famílias, tenho ouvido muita gente comentando que essa é, na verdade, uma das áreas mais desafiadoras de se trabalhar com a criança.

Agora, antes de começar a enviar para vocês as dicas para trabalhar essa virtude com as crianças durante esse mês, quero fazer uma pergunta bem franca:

Você realmente pensa que as crianças deveriam te obedecer?

Essa foi a pergunta que eu fiz a uma professora a quem eu orientei como professora-tutora e que tinha muita dificuldade com o que nós chamamos de “controle da sala”, ou seja, a habilidade de ensinar sem que as crianças passem por cima de você.

Um dia, assistindo um pouco a aula dela, me ocorreu que na verdade ela não se considerava alguém a quem as crianças deveriam obedecer. É como se ela se sentisse insegura da sua posição diante deles.

E o grande problema é que as crianças – e adolescentes, e adultos… – sabem EXATAMENTE quando estão diante de alguém a quem devem obedecer, simplesmente por conta da postura que essa pessoa assume, ou do quanto ela transmite ser uma autoridade.

Sim, existe uma parte da desobediência que é da criança mesmo – por isso trabalhamos ensinando-as a cultivar a virtude da obediência. Mas existe outra parte que é do adulto – a sua autoridade.

É por isso que ouvimos tanto:

“Não tem jeito, ela só obedece o pai”, ou

“Essa sala é uma indisciplina só, mas quando entra o professor X eles ficam comportados que parecem outros alunos”.

Quando percebemos isso, temos sempre duas alternativas: uma é ficam arrumando justificativas externas e achar que a criança só obedece a A ou B, e não a mim. A outra é pensar: o que A e B fazem que eu não faço? Como posso me tornar a pessoa a quem as crianças obedecem?

Para isso, a primeira coisa que precisamos é pensar na pergunta que eu coloquei logo acima:

Você realmente pensa que as crianças deveriam te obedecer?

Digo isso porque não adianta trabalhar estratégias diversas se você se sente inseguro ou insegura de sua autoridade diante das crianças. Antes de tudo é isso que precisa ser resolvido.

Mas por que assumir uma postura de autoridade é tão difícil? Creio que por algumas razões. Vou deixar quatro razões aqui para que você considere qual é a sua situação:

1º – Desejo de agradar às pessoas/ medo do que as pessoas pensam:

Se você lida com algum tipo de insegurança que faz com que você tenha medo de desagradas as pessoas, certamente será mais difícil exercer autoridade nos dias de hoje, porque, como eu disse no início, vivemos em um tempo em que o conceito de autoridade foi deturpado e o politicamente correto é ser legal. Então para você pode ser difícil ser aquela mãe/ pai/ professor que exige autoridade por medo das pessoas dizerem que você é radical demais, que é exigente demais, ou, pior, que está traumatizando seu filho ou aluno e impedindo que ele cresça emocionalmente saudável.

2º – Desejo de agradar à criança/ medo de perder o afeto da criança:

Talvez sua dificuldade não seja com o que as outras pessoas pensam, mas o medo de que a criança deixe de gostar de você, ou medo de que sua autoridade crie uma distância afetiva entre você e a criança. Muitas vezes as crianças, frustradas por verem sua vontade contrariada, usam frases como “você não me ama”, ou “nunca mais vou gostar de você”, ou “minha mãe deixa fazer, ela é mais legal”. É claro que isso tudo é dito “da boca para fora” e se trata apenas de tentativas da criança de fazer com que você faça o que ela quer, mas muitas vezes essas frases nos abalam e nos fazem temer perder o carinho da criança ou ser menos amado por ela do que outras pessoas mais “legais”.

3º – Medo de fazer mal para a formação intelectual ou moral da criança:

Talvez você não se importe tanto com o que os outros dirão, nem se deixe levar pelas pequenas chantagens da criança, mas se preocupe em agir de forma que atrapalhe a formação moral ou intelectual da criança. Medo de ser autoritário e com isso tolher a criatividade da criança ou torná-la uma criança passiva que não sabe pensar.

4º – Não se considerar apto a exercer sua função como pai, mãe, professor ou tutor:

Muitas vezes a insegurança faz com que uma pessoa se sinta despreparada ou mesmo incapaz de ensinar ou educar a criança como deveria. Quando isso acontece você passa a questionar tudo o que faz e como não tem certeza se está agindo da forma correta, qualquer argumento é o bastante para fazer com que você volte atrás no que já tinha dito ou desista de afirmar sua autoridade diante da criança.

Bem, se você lida com alguma dessas questões, eis alguns pontos que você deveria anotar para sempre voltar a eles quando precisar:

1º – NÃO TENHA MEDO DO QUE AS PESSOAS PENSAM. Uma coisa é buscar, ouvir conselhos sábios e acatá-los; outra é viver tentando agradar às pessoas. Lembre-se que educar é uma missão; ou seja: uma incumbência que você recebeu e pela qual prestará contas. A mesma sociedade que reclama porque você é radical demais com seu filho é aquela que dirá: gente, que criança mais mal educada! Então decida em seu coração fazer o que é certo e aprenda a conviver com pessoas dizendo que você é chata, ou exigente, ou todos aqueles termos que as pessoas usam quando querem te fazer sentir-se mal por ter coragem de fazer o que elas não fazem.

2º – NÃO TENHA MEDO DE PERDER O CARINHO DA CRIANÇA. Quando você age com autoridade a criança sabe que você está agindo por amor. E mesmo quando eles reclamam e tentam manipular suas emoções, no fundo espera que você permaneça firme para que ela se sinta segura de que você sabe o que está fazendo. E ela vai admirar mais você, vai continuar amando como sempre amou e quando você não estiver por perto (acreditem, já vi isso muitas vezes em sala de aula), vai dizer para os colegas com tom de orgulho sobre o quanto você é firme e não admite desrespeito.

3º – NÃO TENHA MEDO DE ATRAPALHAR O DESENVOLVIMENTO INTELECTUAL DA CRIANÇA. Criatividade não tem NADA que ver com insubmissão. Como já falei muitas vezes no Curso Ensinar a Estudar, a capacidade de aprendizagem está diretamente relacionada com a capacidade de submeter-se a regras e à autoridade. Antes de aprender a criar a pessoa precisa adquirir repertório, entender a lógica das coisas, ouvir quem sabe mais. Não se deixe levar pelas ideologias modernas que tentam fazer parecer bonito uma criança que questiona tudo e a todos. Essa terrível mentira de que é melhor ser questionador do que ser obediente tem destruído não apenas a moral das crianças como seu intelecto.

4º – NÃO BASEIE SUA AUTORIDADE EM SEU NÍVEL DE HABILIDADE, CONHECIMENTO OU EXPERIÊNCIA. Lembre-se que você é a pessoa a quem Deus deixou como responsável por conduzir e ensinar a criança. Você é a pessoa que já viveu muitos anos mais do que a criança e que sabe o que é melhor para ela. Você precisa convencer a si mesmo de que você é o adulto, não um amiguinho. Você pode não saber tudo e ter muitas dúvidas, mas você CERTAMENTE sabe melhor do que ela, que ainda é uma criança.

5º – Acima de tudo, REAFIRME SUAS CONVICÇÕES SOBRE O QUE É EDUCAR UMA CRIANÇA. Se você de fato crê no que a Bíblia diz, não abra espaço em sua mente para teorias e ideias que partem do princípio de que a criança é um poço de bondade, porque não é. A criança precisa de quem a corrija para que seu caráter e seu coração sejam a cada dia moldados conforme o que Deus a criou para ser. Busque a sabedoria de Deus para saber como agir quando você estiver em dúvida, mas não se deixe levar pelas teorias que tentam justificar o comportamento da criança dando nomes bonitos aos vícios, falhas de caráter e pecados.

Essa convicção interna da autoridade que você recebeu de Deus vai transparecer no tom de voz que você usa com a criança, nos limites que você estabelece e no quanto você admite ou não que a criança te trate com respeito. Sim, precisamos ensinar a criança a praticar a virtude da obediência, e os desafios que vocês receberão este mês têm esse objetivo. Mas trabalhar internamente suas próprias convicções quanto à sua própria autoridade é, como diz minha mãe, “meio caminho andado” para conseguir que as crianças obedeçam.

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Um abraço,

Katarine Jordão