A Virtude do Autocontrole

A Virtude do Autocontrole é, para mim, uma das mais importantes a serem trabalhadas em nossas vidas e na das crianças!

Bem, não só “para mim”. Na verdade a Temperança e o Autocontrole já eram colocados entre as principais virtudes e disposições humanas lá atrás por Platão e Aristóteles, e antes ainda nos textos bíblicos onde Deus ensinava a seu povo os princípios que deveriam seguir para desfrutar uma vida plena e abençoada.

DICA #1 – AVALIANDO

Sugiro um pequeno teste para que você avalie a questão do autocontrole. Antes, porém, é importante considerar:

O que seria o autocontrole?

Geralmente a imagem que temos de uma pessoa descontrolada é de alguém gritando e agindo como quem perdeu a razão. O autocontrole, no entanto, abrange muito mais porque é a habilidade de controlar a si mesmo em todas as áreas:  controlar a si mesmo para não comprar por impulso, não comer por gula, não falar mais do que deveria, e até mesmo não se entristecer sem razão. Trata-se de não agir com base naquilo que eu sinto vontade de fazer, e sim com base em minhas convicções de qual é a atitude certa para cada momento.

Fácil? Certamente não. Muito menos quando vivemos em meio a uma sociedade que a todo tempo promove exatamente o oposto: a vitória das paixões sobre os princípios.

“Você deseja? Faça!”

“Siga o seu coração”

“Coma! Compre! Liberte-se! Experimente!”

As consequências de uma vida baseada em satisfação imediata dos desejos todos nós sabemos. O problema é que quem incentiva essa “liberdade” não estará lá para ajudar aquele que se tornou escravo dos seus desejos e vontades.

Infelizmente, para as crianças de hoje talvez seja ainda pior. Isso porque a maior parte de nós, adultos, chegamos a viver a experiência de precisar esperar pelo doce no fim de semana, esperar chegar a idade certa para poder usufruir de certos privilégios, até mesmo esperar chegar meia-noite para poder usar a internet. Já as crianças do nosso tempo atual, ao contrário, têm tudo ao alcance das mãos – e não raro no instante em que exigem.

Mas quem estará lá para socorrê-las quando colherem as consequências de um caráter moldado sem qualquer autocontrole? E quando se perceberem incapazes de resistir aos apelos e tentações que o mundo oferece? E quando cederem a desejos que lhes trarão perdição?

Durante o mês de setembro conversaremos, no Projeto Virtude do Mês, sobre como podemos trabalhar a virtude do Autocontrole com as crianças.

O primeiro desafio é o pequeno teste que eu mencionei no início. Então convido você a pegar um papel e um lápis e anotar sua resposta a essas duas perguntas:

  1. De 0 a 10, que nota eu daria para meu filho (ou para cada um dos meus filhos), quanto à habilidade que ele tem de controlar a si mesmo?
  2. De 0 a 10, que nota eu daria a mim mesmo quanto à minha habilidade de exercer o controle sobre os meus impulsos e agir conforme o que é o certo a ser feito, não o que eu tenho vontade?

Ao pensar nessas questões você pode tentar lembrar-se de áreas específicas, mas a ideia aqui é considerar o princípio geral de agir conforme o que é certo para aquele momento, não conforme o que se tem vontade de fazer. Nesse caso, ZERO seria a nota para uma pessoa que sempre é guiada por seus impulsos e desejos, e DEZ seria a nota para uma pessoa que sempre consegue deixar de lado sua vontade e simplesmente agir conforme o que o é o certo a se fazer. Claro, entre 0 e 10 existem os outros números para você considerar também.

Nosso propósito, ao longo deste mês, será ensinar à criança que treinar o governo da própria vontade não é castigo, é dádiva. E que aquele que controla a si mesmo, esse sim é livre para desfrutar de tudo aquilo para o qual foi criado. Esse sim é livre para viver!

DICA #2 – ENSINANDO

Pois bem. Assim como no caso da virtude da Obediência, que trabalhamos no mês passado, a ideia é que o primeiro passo para trabalhar com a criança é ensinando a ela sobre o que é e qual a importância do autocontrole nas nossas vidas.

E, como vocês já sabe, a melhor forma de ensinar um princípio é começar contando… Exatamente! Uma história. Na verdade, no caso da virtude do Autocontrole, certamente existem MUITAS histórias reais – situações do dia a dia mesmo – que você poderia contar para explicar às crianças por que é tão importante sabermos controlar a nós mesmos.

Como já contei, dos livros que trabalhamos no Programa Valores e Virtudes, a história de Pinóquio é a que mais trata da questão de Autocontrole. Durante todo o livro acompanhamos o pequeno boneco de madeira lutando contra seus impulsos até aprender a agir fazendo o que é certo, não o que tem vontade.

Para quem ainda não trabalha com o livro, separei duas pequenas historinhas para ajudá-los neste desafio. Me digam o que vocês acham 🙂

Ver as histórias

DICA #3 – MEMORIZANDO

semana passada a dica foi explicar bem para as crianças a ideia do que é o Autocontrole e combinarem que essa será uma área a ser trabalhada no seu caráter, ensinando tanto por meio dos textos bíblicos como pelas histórias.

Depois disso, o desafio é trazer essa verdade para o coração. Como falei no mês passado, essa é a ideia de “decorar”: ter guardado no coração.
Por isso, o desafio dessa semana é o da memorização (que eu sei que algumas pessoas até já fizeram) do nosso versinho da virtude:

Não sei se você já leu sobre isso (ou se já estudou nas nossas videoaulas do Estudo das Virtudes ), mas Autocontrole é o nome mais contextualizado da Virtude da Temperança, que é uma das quatro virtudes cardeais, também conhecida com Moderação, e a essência dessa virtude é a luta contra os impulsos da nossa vontade ou das nossas reações, seja quanto à comida, bebida, uso do celular, jogos, ou mesmo a ira.

A parte interessante, quando estudamos essa virtude em Aristóteles, é que a moderação é o ponto de equilíbrio entre os excessos e a insensibilidade. Quer dizer, é bom desfrutarmos com prazer daquilo que foi criado para esse fim. Seria terrível ser uma pessoa que não sente prazer em nada, não é?

O problema então está no excesso: o ser controlado por esses prazeres e vontades. Esse é o problema que procuramos vencer por meio do exercício do autocontrole.Mas, se você já tentou, como todos nós, lidar com algum área da sua vida nesse sentido, sabe que não é tão simples assim. Por isso na semana que vem o desafio será para ajudar a criança nessas pequenas batalhas para desenvolver a virtude do autocontrole.Por enquanto, vamos memorizar com elas esse versinho?

(Se você ainda não adquiriu os cartões das virtudes corre lá, porque tem um vídeo onde eu explico a “historinha” das imagens de cada cartão para motivar as crianças a colocar em prática também. =)

Almanzo e os Potrinhos

Trecho extraído e adaptado do livro “O jovem fazendeiro”, de Laura Ingalls Wilder

Almanzo era um garotinho que vivia em uma fazenda com família. Ali, cada um tinha suas responsabilidades e tarefas a cumprir; mesmo Almanzo que tinha apenas oito anos. Uma de suas tarefas era fazer a limpeza dos estábulos onde ficavam os cavalos – os animais que Almanzo mais amava e que sonhava um dia poder cuidar.

Quando Almazon entrava nos celeiros, passava sempre pela pequena porta do Curral dos Cavalos. Gostava de cavalos. Ali ficavam eles, em suas baias espaçosas, limpos, lustrosos, de um marrom-brilhante, com suas compridas caudas e crinas negras.

Os cavalos trabalhadores, tranquilos e prudentes ruminavam placidamente o seu feno. Os de três anos enfiavam os focinhos através das grades e pareciam murmurar entre si. Então, suavemente, fungavam um sobre o pescoço do outro; um deles fingia morder e todos relinchavam, rodopiavam e pulavam, brincando. Os cavalos velhos viravam a cabeça e olhavam como avós para os netos. Mas os potros corriam animados, em suas patas magras, olhando espantados.

Todos conheciam Almanzo. Esticavam as orelhas e seus olhos brilhavam suavemente quando o viam. Os de três anos avançavam sofregamente e enfiavam as cabeças para fora a fim de acariciá-lo com o focinho. Seus focinhos, com alguns poucos pelos duros, eram macios como veludo, e nas testas os pelos finos e curtos eram lisos como seda. Os pescoços arqueavam-se altivamente, firmes e redondos, e as crinas negras caíam sobre eles como pesadas franjas. Era possível passar a mão ao longo daqueles pescoços firmes e curvados, sentindo o calor que havia por baixo da crina.

Mas Almanzo dificilmente se atrevia a fazê-lo. Não lhe permitiam tocar os belos cavalos de três anos. Não podia entrar em seus estábulos nem mesmo para limpá-los. Ele só tinha oito anos e o pai não o deixava lidar com os cavalos jovens ou com os potros. O pai ainda não confiava nele, porque os potros e os cavalos novos, não amansados, tornam-se não adestráveis com muita facilidade.

Um menino que não entende do assunto podia assustar um cavalo novo, ou aborrecê-lo, ou mesmo bater nele, e isso o estragaria. Aprenderia a morder, a pular e a odiar as pessoas, e então nunca seria um bom cavalo.

Almanzo entendia do assunto; nunca assustaria ou magoaria nenhum daqueles belos potros. Sempre se mostraria tranquilo, gentil e paciente; não espantaria um potro nem gritaria para ele, nem mesmo se lhe pisasse o pé. Mas o pai não acreditava nisso.

Almanzo, portanto, só podia ficar olhando com vontade para os ansiosos cavalos de três anos. Apenas lhes tocava os focinhos aveludados e depois se afastava rapidamente deles e enfiava seu camisolão de celeiro por cima de suas boas roupas de escola para começar a trabalhar.

O jovem fazendeiro – Laura Ingalls Wilder
Edições Best Bolso

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Selecionei esse trecho do livro como história para iniciar a conversa com as crianças ao ensinar sobre a Virtude da Obediência, como sugerido no nosso Projeto Virtude do Mês.

Depois de ler a história é interessante conversar com as crianças:

  • Por que Almanzo não podia entrar para brincar e nem mesmo tocar nos potrinhos e cavalos jovens?
  • Por que o pai de Almanzo não permitia que ele se aproximasse dos potrinhos, mesmo Almanzo já sabendo o que não deveria fazer?
  • Mesmo achando que sabia como agir, por que Almanzo não entrou no estábulo dos cavalos jovens?

O pai de Almanzo sabia que se um daqueles potrinhos ou cavalos jovens se tornasse não adestrável a família teria um grande prejuízo. Almanzo tinha certeza de que ele sabia agir do jeito certo, mas muitas vezes nós achamos que sabemos algo que ainda não sabemos bem. Quando os pais dizem o que você deve fazer ou não fazer, os filhos precisam confiar que os pais sabem o que estão dizendo. Eles já foram crianças e adolescentes também, e eles sabem como as coisas são. Além disso, Deus mesmo é quem dá sabedoria aos pais para tomar as decisões quanto ao que é melhor para os filhos. É por isso que Ele deixou como mandamento que os filhos obedeçam aos pais. Quando uma criança é obediente, fazendo aquilo que seus pais dizem, Deus abençoa a sua vida e a ajuda a crescer cada vez mais sábia e feliz.

Katarine Jordão