Educação e Sabedoria

Disse Drummond que cada palavra tem mil faces secretas sob a face neutra. Acho isso a mais pura verdade. E nesse reino das palavras que sempre me encantou, algumas delas se parecem ter mais força, mais profundo sentido, mais brilho. São aquelas que, quando ouço, paro tudo para descobrir de onde veio, quem falou e se eu posso me juntar à conversa. Uma delas é sabedoria – essa palavra que eu admiro desde criança, quando ainda ouvia a história da maravilhosa escolha do rei Salomão.

Embora sempre tenha entendido a sabedoria como algo superior ao mero acúmulo de conhecimento e raciocínio lógico, foi apenas recentemente que entendi melhor não apenas o sentido, mas a origem da Sabedoria e, consequentemente, suas implicações para a Educação. Uma sabedoria em que conhecimento, sentimento e ação caminham juntos. Uma sabedoria cuja essência está no “saber viver”.

Comecei a entender melhor tudo isso no dia da defesa da dissertação de mestrado do Igor Miguel, meu amigo. Eu já sabia que ele estava pesquisando sobre a Sabedoria em uma análise pedagógica dos Provérbios de Salomão, mas foi quando ouvi sobre o comentário feito por uma das professoras da banca examinadora quanto à ênfase do estudo da sabedoria grega e ignorância da perspectiva de sabedoria nos textos hebraicos, que eu finalmente entendi: Por que, afinal, falamos tanto sobre o conceito de sabedoria a partir dos filósofos gregos e ignoramos completamente o que foi dito e pensado sobre a sabedoria na tradição judaica que antecede Sócrates, Platão e todos os outros?

Certamente temos muito a aprender com os gregos e os pensadores clássicos que amavam a busca pela sabedoria, assim como temos muito a aprender com todos aqueles que têm se debruçado sobre os temas que envolvem a Educação – afinal, a Graça não é comum?  Mas as perguntas que têm ecoado em minha mente, há algum tempo, são essas:

Quando foi que nós, cristãos, passamos a desprezar toda a sabedoria contida nos textos sagrados e passamos a buscar respostas e a depositar nossa esperança somente nas teorias que os estudos modernos (cuja procedência e rigor acadêmicos são, quase sempre, duvidosos) têm produzido? E por que fizemos isso? E quando vamos parar e nos voltar para os tesouros contidos nos textos que nós afirmamos ter sido escritos por Aquele em cujas palavras mora a Verdade?

“O meu povo cometeu dois crimes: eles me abandonaram, a mim, a fonte de água viva; e cavaram as suas próprias cisternas, cisternas rachadas que não retém água.”[1]

Nesses últimos anos tenho entendido muitas coisas sobre o “quando” e “por que” fizemos isso. Agora me junto àqueles que tentam descobrir o que podemos fazer quanto à terceira questão: como voltar a buscar respostas para todas as áreas da vida, incluindo a Educação, a partir daqueles valores e princípios eternos que nos foram entregues. Hoje eu tenho pesquisado e lido sobre o tema “educação do caráter e formação das virtudes”, especialmente considerando para isso a literatura clássica e, como consequência, a necessidade de formar leitores fluentes e habilidosos na “arte de ler”.

Sou aprendiz em tudo isso, mas quero compartilhar aqui tudo o que já tenho aprendido.

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Onde está a vida que perdemos na vida?
Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?
Onde está o conhecimento que perdemos na informação? [2]

T.S. Eliot


[1] Jeremias 2:13
[2] Choruses from The Rock – T.S. Eliot