O professor, a prática e as teorias

Você não acha que o mundo seria um lugar melhor se as pessoas parassem de falar sobre a importância da criatividade e de fato começassem a usar ou exercitar seu potencial criativo?

Técnicas são legais, mas simplesmente copiar técnicas dos outros não te torna bom naquilo que você faz.

Veja o caso de ser professor, por exemplo. Um dia, participando de uma aula do mestrado na USP, alguém disse: “Mas precisamos tornar isso prático. Os professores não têm perfil para lidar com teorias, eles precisam das receitas prontas de como aplicar isso na sala de aula.”

Não sei você, mas eu discordo dessa afirmação, e com veemência. Uma pessoa pode não ter disposição para aprender e estudar as teorias, mas essa história de não ter perfil e precisar de receitas é furada. Se você tem a base, se conhece as teorias, você simplesmente não é um refém de receitas prontas para dar aula – porque você sabe criar a receita certa para cada necessidade.

Eu gosto demais de compartilhar com outros professores ou com os pais as ideias e estratégias que já criei e que deram certo, assim como gosto demais de analisar professores que são muito bons para descobrir as estratégias que eles usam. Mas a verdade é que uma mesma técnica não vai dar certo para todo mundo. Você não consegue simplesmente usar a mesma estratégia com todas as turmas. O contexto muda, surge a necessidade de uma nova ideia. Isso é ser professor, sabe? É analisar uma situação e pensar: o que eu posso fazer para que esses alunos desenvolvam melhor esse ponto? É assim que nasce uma nova técnica, uma nova estratégia.

O problema é que mesmo sendo todos à imagem do Criador e possuindo esse incrível potencial criativo, somos limitados. Só Deus pode criar ex-nihilo – a partir do nada. Nós, não. Nós precisamos de repertório, de base. Nossa criatividade se forma a partir de tudo o que já vivenciamos e tudo o que conhecemos sobre nossa área de atuação. Sim, gente. Precisamos conhecer as teorias. Precisamos entender as ideologias e princípios que guiam as metodologias que usamos. Precisamos parar com essa coisa de “Ok, pula essa parte teórica e vamos para a parte prática”. Essa não é uma atitude boa para um bom professor.

Se você é um cozinheiro comum você segue receitas. Se você é “O” cozinheiro, você conhece a função de cada ingrediente e você pode criar suas próprias receitas. Não é assim que nascem os grandes chefs? Pessoas que não se contentam em copiar um prato, mas passam horas experimentando sabores e combinações até que surja uma obra prima?

Dizem que algumas pessoas têm perfil criador e outras têm perfil executor. Talvez exista sim uma tendência. Contudo eu creio que toda profissão e atividade humana possuem essa essência de obra de arte. E tenho a impressão que qualquer um poderia ser um Vermeer, mas a maioria prefere ser um Van Meegeren.

A questão é que copiar técnicas alheias ou se acomodar a executar comandos nunca trará a mesma alegria, a mesma sensação de plenitude. Porque fomos criados para isso – criados para conhecer profundamente as estruturas, os ingredientes, e então construir novos pratos, novas ideias. Fomos criados para criar. Exercer a criatividade é trabalhar para que o jardim floresça e produza frutos. E essa é uma grade parte da essência do que é ser professor.

“Dum docent, discunt” – Quando ensinam, aprendem

Preenchendo o gráfico biográfico das personagens estudadas:

“Prô, magnum opus entra em Influências ou em Contribuições?”
“E por acaso você sabe o que significa magnum opus??”
“Sei. É a melhor obra que ele fez. No caso, O Senhor dos Anéis.”

“Prô, qual o nome inteiro do Lobato mesmo?”
“Lobato? Monteiro Lobato? Mas sua pesquisa não é sobre o petróleo?”
“Sim! É que ele escreveu cartas para o presidente para convencer ele que tinha petróleo! Você não sabia?”

“Prô, você sabia que o Lewis e o Tolkien escreveram juntos um livro que nunca foi publicado? Chama ‘Linguagem e Natureza Humana'”

É assim… Eles me surpreendem. Eles descobrem coisas que eu não sei. Eles me fazem ser uma professora mais feliz! Por favor, não menospreze a capacidade das crianças!

Sobre o desafio de manter o “Não”

“Prô, posso trocar de lugar com o Fulano?”
“Não. Pode voltar para o seu lugar.”
Cinco minutos depois:
“Prô, posso trocar de lugar com o Fulano?”
“O que te faz pensar que a minha resposta agora vai ser diferente da resposta que eu já te dei para essa mesmíssima pergunta cinco minutos atrás? Volte para o seu lugar, por favor.”
Trinta minutos depois, como se nunca tivesse dito isso antes:
“Prô, posso trocar de lugar com o Fulano?”
“Posso saber por que razão você faz uma pergunta se já sabe a resposta?”
“Porque é assim que a gente consegue as coisas nessa vida, né, prô? A gente vai insistindo, insistindo e uma hora consegue”.

– Pois é… As crianças sabem persistir quando lhes convém. Educar crianças é, em grande parte, ser capaz de manter o “não”, mesmo quando elas insistem de todas as formas possíveis (do jeitinho doce e manhoso à birra, choro e bater de pé).

Precisamos ensiná-las a usar essa  perseverança em outras áreas da vida – aquelas que exigem esforço incansável até que o alvo seja alcançado, para que seu caráter seja forjado à base da convicção de que toda grande conquista é precedida por trabalho árduo e dedicação. Os caminhos curtos são mais fáceis, mas não formam pessoas fortes.

“Problemas emocionais”

“Prô, você tem problemas emocionais?
“Sim. Todos têm problemas emocionais.
“Você faz terapia?
“Não. Existem várias formas de aprender a lidar com as emoções.
“Eu conheço uma pessoa que não tem problemas emocionais. Ele não chorou no velório da mãe dele.
“Mas o fato de não chorar não quer dizer que a pessoa não têm problemas emocionais. Às vezes a pessoa não chora exatamente porque não sabe lidar com a tristeza, e isso se torna um problema.
“Então eu acho que eu nunca vou ter esse problema emocional, porque eu choro por tudo nessa vida!

A valorização da estética na Educação Cristã*

*Artigo elaborado para apresentação da palestra de mesmo título, apresentada no 21º Workshop da AECEP em 2012.

Por Katarine Jordão

A questão da estética se tornou um dos paradoxos do nosso tempo: o ardente anseio pelo sublime em um mundo que não valoriza o encanto, a poesia e a imaginação.

Qual importância da estética na vida e na Educação? Como a educação cristã tem lidado com esta questão? De que forma podemos valorizar e implantar práticas que resultem em encantamento e beleza?

Estas e outras questões serão abordadas a seguir, visando considerar qual a relação entre estes aspectos e a missão educacional que resulte na glória de Deus.

  1. O que podemos entender por “estética”?

Embora o conceito de “estética” seja frequentemente vinculado ao embelezamento do corpo, etimologicamente esta é uma palavra de origem grega /aesthésis/ e traz o sentido de percepção ou sensação.

No entanto, é importante ressaltar que, assim como outros temas, a questão da estética dificilmente poderia ser contida em uma única definição. Filósofos, críticos e teóricos têm tentado, no decorrer da História, compreender e conceituar a estética e seu lugar na vida humana, sob diversos pontos de vista.

Na Grécia antiga o conceito de estética estava ligado ao conceito de belo, que foi e ainda é objeto de estudo da filosofia. Platão definia o belo como o bem, a verdade, a perfeição; como algo que existe em si mesmo, apenas no mundo das ideias e não no mundo sensível, não permitindo ao juízo humano o julgamento do que seria belo ou não.

Aristóteles, diferentemente de Platão, acreditava que o prazer associava-se à imitação artística da natureza e, por ser a arte uma criação particularmente humana, o conceito de belo não poderia ser separado daquilo que é sensível ao homem. Aristóteles formulou uma série de critérios para se avaliar uma obra de arte. Proposição, simetria, composição, ordenação e equilíbrio precisavam estar presentes em justa medida para que uma arte fosse considerada bela.

Mais tarde, na Idade Média, a autoridade eclesiástica introduziu o conceito de que o belo seria a identificação direta com Deus. Tanto Santo Agostinho como São Tomás de Aquino identificam a beleza com o Bem considerando que a perfeita simetria, proposição e ordem residem no próprio Deus.

Com a chegada do Renascimento, a visão de arte é desvinculada do serviço a Deus ou a expressão das verdades criadas por Ele e o artista passa a ser um criador absoluto.

Entre os diversos caminhos tomados pelas linhas de pensamento que trataram do tema, surge, no Iluminismo, com o conceito de René Descartes quanto à superioridade da lógica e do pensamento sistemático em contraposição à intuição e emoção: a ideia de que o homem precisa ter o controle consciente e racional do conhecimento para que este se torne comprovável. A partir de então os aspectos subjetivos da vida são afastados para a esfera particular e excluídos de qualquer atividade considerada científica e útil.

Ao mesmo tempo em que torna a Estética um campo específico da Filosofia, a visão cartesiana menospreza as possibilidades e necessidades de encantar-se com o mundo criado por Deus.

Mas quais seriam as consequências desses pensamentos na realidade do mundo em que vivemos?

  1. O anseio pela beleza em um mundo desencantado

Não apenas os campos da Estética e das Artes foram afetados por esta forma de pensar a vida. Na cultura ocidental, todas as áreas da vida humana vivem hoje os resultados de um pensamento desenvolvido a partir do Renascimento Europeu onde o homem, em seu desejo de libertar-se do domínio de Deus e seus princípios, aventurou-se em um caminho onde ele próprio, e não mais Deus, seria o centro de todas as coisas.

Contudo, ao afastar-se de Deus e seus princípios para a vida, insistindo numa análise puramente lógica, racional e individualista, a frieza ganhou espaço e a sensibilidade perdeu seu valor.

Não obstante todos os avanços da ciência e da tecnologia, o crescimento da indústria do entretenimento e a facilidade de acesso ao conhecimento, o mundo está sem cor. Não há tempo, não há equilíbrio, não há paz. Numa educação voltada para a competição no mercado de trabalho, as crianças crescem aprendendo muito sobre como ser alguém na vida, mas pouco ou nada sobre como viver a vida de forma plena. A depressão e a síndrome do pânico são anunciadas pelos estudiosos como o mal do século em uma sociedade onde cada vez mais as pessoas se sentem sozinhas, mesmo caminhando em meio a uma multidão.

E embora vivendo as consequências de um pensamento cujas raízes se encontram firmadas há mais de 500 anos, o homem anseia pela beleza da vida. Os shoppings que investem milhares de reais em decoração e beleza já compreenderam isso. Faz parte dos cursos de publicidade e propaganda a tarefa de descobrir como tornar os lugares mais belos para que as pessoas desejem estar ali. E embora motivados pelo consumismo, eles revelam que as pessoas de fato anseiam pelo sublime que pode ser encontrado na arte, na beleza e nos princípios estabelecidos, desde o princípio, por Deus.

  1. Deus e a estética – a arte na Bíblia

 “Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite. Não há linguagem nem fala onde não se ouça a sua voz. A sua linha se estende por toda a terra, e as suas palavras até ao fim do mundo. Neles pôs uma tenda para o sol, o qual é como um noivo que sai do seu tálamo, e se alegra como um herói, a correr o seu caminho. A sua saída é desde uma extremidade dos céus, e o seu curso até à outra extremidade, e nada foge ao seu calor.” (Salmo 19:1-6)

Gênesis 1:31 nos conta como, após terminar a criação do mundo, Deus viu tudo o que tinha feito e era muito bom!

Não é preciso muito esforço para reconhecer a beleza em Deus e em suas obras. Talvez baste admirar um pôr do sol, contemplar uma noite estrelada ou demorar-se observando os detalhes na estrutura de uma folha e nas cores de uma flor e então se perguntar: por que Deus se importou em criar coisas tão belas? Por que razão não as fez simplesmente úteis? Por que motivo há cores tão vivas, tão belos sons e tão ricos detalhes?

Também não é preciso muito esforço para descobrir a resposta: Para a Sua glória! “Tudo foi criado por Ele e para Ele” (Cl.1:16). A beleza de cada obra criada existe para refletir a beleza que há no Criador. E “Desde Sião, perfeita em beleza, Deus resplandece.” (Salmo 50:2).

E não bastasse sua própria criação, a Bíblia também nos mostra o cuidado de Deus em transmitir aos homens a capacidade criadora para que também as obras humanas sejam um reflexo da Sua glória!

Quando ordenou como deveria ser construído o Tabernáculo, o lugar onde Ele habitaria, é impressionante perceber o cuidado com cada detalhe daquele que deveria ser elaborado, não apenas por homens capacitados, mas também por artesãos, como descreve Êxodo 35:30-35:

Depois disse Moisés aos filhos de Israel: Eis que o SENHOR tem chamado por nome a Bezalel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá. E o Espírito de Deus o encheu de sabedoria, entendimento, ciência e em todo o lavor, e para criar invenções, para trabalhar em ouro, e em prata, e em cobre, e em lapidar de pedras para engastar, e em entalhar madeira, e para trabalhar em toda a obra esmerada. Também lhe dispôs o coração para ensinar a outros; a ele e a Aoliabe, o filho de Aisamaque, da tribo de Dã. Encheu-os de sabedoria do coração, para fazer toda a obra de mestre, até a mais engenhosa, e a do gravador, em azul, e em púrpura, em carmesim, e em linho fino, e do tecelão; fazendo toda a obra, e criando invenções. (Êxodo 35:30-35)

Deus, o Artista por excelência, capacitou os homens e indicou, em detalhes, quais seriam os materiais, medidas e formatos em cada objeto: o incenso, elaborado como “um perfume segundo a arte do perfumista, temperado, puro e santo” (Êxodo 30:35). O peitoral que seria usado pelo sacerdote, feito “de obra de artífice, como a obra do éfode, de ouro, de azul, e de púrpura, e de carmesim, e de linho fino torcido.” (Êxodo 39:8). O candelabro com “três taças com formato de flor de amêndoa num dos braços, cada uma com botão e flor, e três taças com formato de flor de amêndoa no braço seguinte, cada uma com botão e flor.” (Êxodo 25:33). E a arca da aliança, com suas argolas e revestimento em ouro, “com dois querubins de ouro batido nas extremidades da tampa.” (Êxodo 25:18).

Que magnífico lugar deve ter sido! A habitação de Deus se destacando em cores, formas e beleza no meio do deserto, trazendo ao povo o alento da sua presença e a certeza da sua glória majestosa.

A partir desta perspectiva, qual deveria ser então o lugar e a importância da beleza em nossas vidas e em nossa forma de educar?

  1. A estética na educação cristã

Certamente sabemos que a beleza não pode ser um fim em si mesma. A ira de Deus se acendeu contra o seu povo quando a obra de arte se tornou alvo de adoração – como no caso do bezerro de ouro (Êxodo 32:7-8) e da serpente de bronze (II Reis 18:4). Deus nos adverte em diversos momentos quanto à valorização de uma beleza apenas exterior que não esteja vinculada ao caráter.

Ao tratar deste assunto, assim como de qualquer outro, precisamos ter em mente que nossa motivação sempre deve ser a glória de Deus e que, desvinculados dos princípios que Ele mesmo instituiu, qualquer tentativa de tornar melhores a vida e o mundo resulta em trabalho vão.

Apesar disso não podemos deixar de considerar a importância e necessidade das experiências estéticas para a vida, por diversas razões.

Sendo a primeira delas a glória de Deus que se revela por meio da beleza, conforme já discorrido, é necessário considerar também as consequências disso na vida dos nossos alunos.

Ao valorizar a contemplação e produção da beleza por meio da percepção estética das coisas, oferecemos às crianças e adolescentes um padrão que está além da realidade de vida que o mundo oferece.

Em seu Panorama Curricular, o Programa AMO – Apascenta as Minhas Ovelhas –, que tem como missão “construir esperança e visão na próxima geração para que influenciem a cultura para Cristo”, compreende a valorização da beleza como um importante componente na busca por nutrir a criança de forma integral.  Estabelece o Programa:

“As artes nutrem a alma do homem, os portais de seu espírito. Beleza lida com o eterno e espiritual. Crianças são famintas por verdade e beleza. Beleza possui valor moral para a verdade. A cultura nobre é transcendental. Permite que a criança voe acima da circunstância, oferecendo esperança através de ideais nobre e ideias criativas para a resolução de problemas.”

É importante ressaltar que, mesmo nos Parâmetros Curriculares Nacionais definidos para a Educação brasileira, esses princípios já se encontram estabelecidos.

Em sua introdução é defendido que os objetivos para a educação integral do ser “… se definem em termos de capacidades de ordem cognitiva, física, afetiva, de relação interpessoal e inserção social, ética e estética, tendo em vista uma formação ampla.” (PCN. P. 47).

No volume dedicado especificamente à Arte, encontramos uma ênfase ainda maior na necessidade quanto à sensibilização do indivíduo:

“O conhecimento da arte abre perspectivas para que o aluno tenha uma compreensão do mundo na qual a dimensão poética esteja presente: a arte ensina que é possível transformar continuamente a existência, que é preciso mudar referências a cada momento, ser flexível. Isso quer dizer que criar e conhecer são indissociáveis e a flexibilidade é condição fundamental para aprender.” (PCN Arte, p. 19)

“Apenas um ensino criador, que favoreça a integração entre a aprendizagem racional e estética dos alunos, poderá contribuir para o exercício conjunto complementar da razão e do sonho, no qual conhecer é também maravilhar-se, divertir-se, brincar com o desconhecido, arriscar hipóteses ousadas, trabalhar duro, esforçar-se e alegrar-se com descoberta” (PCN Artes p. 27).

E se essas razões não nos bastassem, precisamos lembrar ainda que estamos formando a próxima geração e que, vivendo como cristãos num mundo desencantado e sem esperança, cabe a nós não apenas levar a mensagem da salvação que Cristo oferece como também restaurar no mundo a glória de Deus e mostrar a plenitude de vida que há Nele.

Como declara Schaeffer, em seu livro A Arte e a Bíblia:

“Cristo é o Senhor de nossa vida como um todo e a vida cristã deve produzir não apenas verdade – uma verdade arrebatadora – mas também beleza. A vida cristã deve ser uma obra de arte. A vida do cristão deve ser algo verdadeiro e belo em meio a um mundo perdido e desesperado”. (Schaeffer, 2010, p. 40)

Para que os alunos que se encontram hoje sob nossa responsabilidade se tornem de fato líderes que influenciarão sua geração e reencantarão o mundo, precisamos trabalhar desde hoje para despertar neles a sensibilidade que o mundo perdeu, de forma que sejam capazes não apenas de apreciar e restaurar no mundo a beleza do próprio Deus, para a sua glória.

Mas como aplicar, de forma prática, esse conceito da valorização da experiência estética na Educação Cristã?

  1. Duas propostas práticas:

 5.1. Produções artísticas e valorização dos clássicos

No caso da Educação por Princípios, a questão estética é valorizada desde a Estruturação Metodológica, que estabelece “a abordagem das Belas Artes como expressão individual de criatividade e elevação do padrão estético, aplicado interdisciplinarmente”, por meio dos Programas de Belas Artes (teatro, dança, música, artes visuais, poesia) como ferramentas pedagógicas.[2]

Além dos cursos oferecidos pelas escolas como diferenciais curriculares – ballet, música, artes, entre outros –, a proposta é que esta abordagem aconteça de forma contínua, ou seja, em atividades desenvolvidas de forma entrelaçada aos demais conteúdos e habilidades desenvolvidos.

Desta forma, a apreciação e produção artística podem ser incluídas em diversas disciplinas e atividades, especialmente na ferramenta que conhecemos como “Celebração da Aprendizagem”, como forma de apresentar publicamente a aprendizagem adquirida.

Os alunos podem produzir redações a partir da contemplação de uma obra de arte como pintura, escultura, música instrumental, leitura de um trecho de um clássico, entre outros. O estudo de um evento histórico também pode ser introduzido com a apreciação de uma pintura que o represente.

Promover um concurso ou sarau com produção ou declamação de poesias, redações, fotografias, desenhos, histórias… As possibilidades são muitas e podem enriquecer muito as aulas e torná-las inesquecíveis na memória dos alunos.

Contudo, neste aspecto, é importante lembrar que a arte precisa ser valorizada enquanto arte, e não apenas como uma forma de se transmitir uma ideia. Utilizar a arte como mero instrumento empobreceria o seu sentido e não ensinaria os alunos a apreciar a beleza que existe nela.

5.2. Ecologia escolar – a beleza do ambiente

Apesar de ser frequentemente relacionada ao meio ambiente, a palavra “ecologia” tem sua origem na palavra grega oikos (casa) e logos (estudo), refletindo a reflexão sobre o meio e suas interações.

A ecologia escolar refere-se, então, ao estudo das relações que acontecem no ambiente escolar, sendo uma delas a relação com o próprio ambiente em si.

Apesar de vivermos em uma cultura que não valoriza a beleza e o cuidado com os ambientes coletivos, a forma como nos relacionamos com a nossa “casa” escolar reflete muito do valor atribuímos aos outros.

Muitas vezes as escolas se preocupam com a aparência de suas dependências considerando que novos pais ou autoridades podem chegar a qualquer momento e precisam ter uma boa impressão da escola. Contudo, como já tratado, nossa primeira motivação para promover a beleza e organização no ambiente escolar deveria ser a glória de Deus e o despertar dos alunos.

Poucas vezes consideramos a influência do ambiente no comportamento social, mas estudos interessantes mostram a diferença de atitudes em ambientes agradáveis das atitudes observadas em ambientes sujos e mal cuidados.

Uma lei aprovada em 1986 na Prefeitura do Rio de Janeiro, estabelece a criação da Divisão de Ecologia Escolar na Secretaria da Educação, que teria como fins:

I – dotar as escolas de condições ambientais propícias à aprendizagem e ao ensino;

II – exercer vigilância para a salvaguarda das condições de higiene, estéticas e de ambiência confortável dos pontos de vista visual, auditivo e olfativo;

III – colaborar com os professores na educação ecológica, tanto dos alunos como da comunidade.[3]

Independente dessas questões, ou anteriormente a elas, como educadores que valorizam o princípio da mordomia cristã, precisamos olhar para esta questão com mais atenção e nos questionar como estamos cuidando do ambiente onde trabalhamos e quais exemplos estamos transmitindo aos nossos alunos.

Não se trata apenas da limpeza – embora muitas vezes os copos e talheres sujos sobre a mesa na sala dos professores cause dúvidas quanto à obviedade desse aspecto – mas de tornar belo e agradável o lugar onde passamos tantas horas do dia com nossos alunos e companheiros de trabalho.

Se de fato queremos que nossos alunos sejam sensíveis à beleza, precisamos considerar se a forma como organizamos e ornamentamos nosso ambiente está condizente com aquilo que esperamos desenvolver neles.

Que o Senhor use as nossas vidas para educar nossos alunos de forma que suas vidas – e as nossas – sejam luz, trazendo a um mundo desencantado e frio, a beleza, alegria e esperança que existem na plenitude da vida que há Nele, para a Sua glória.


[2] A Estruturação da Educação por Princípios pode ser encontrada no site da AECEP: http://www.aecep.org.br/educacao-por-principios

[3] Lei nº 817/1986 – Rio de Janeiro

BIBLIOGRAFIA

BÍBLIA SAGRADA

BRASIL. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. SECRETARIA DE EDUCAÇÃO BÁSICA. Introdução aos Parâmetros Curriculares Nacionais. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica: Brasília (DF), 2006 v.1; il.

BRASIL. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. SECRETARIA DE EDUCAÇÃO BÁSICA. Arte. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica: Brasília (DF), 2006 v.6; il.

SALVI, Rosana Figueiro. A questão pós-moderna e a Geografia, Revista do Departamento de Geociências, vol. 9, nº2, www.uel.br/revistas/geografia/v9n2.pdf. Acessado em de março de 2012.

SCHAEFFER , Francis. A arte e a bíblia.Ultimato: Viçosa, 2010.

SOUZA, Rodolfo A. C. A arte cristã em um mundo desencantado. http://ultimato.com.br/sites/artemfoco/2011/03/22/a-arte-crista-em-um-mundo-desencantado. Acesso em 10 de fevereiro de 2012.

VALE, Lúcia Fátima do. A estética e a questão do belo nas inquietações humanas. www.espacoacademico.com.br/046/46cvale.htm. Acessado em 10 de março de 2012.

WEBSTER, Noah. American Dictionary of English Language. http://1828.mshaffer.com/ Acessado em 10 de março de 2012.

o – RJ