Passaporte de Leitura

Oi, gente!

Esses dias postei a foto comentando que falaria no Curso Ensinar a Estudar sobre Passaporte de Leitura que nós usávamos quando eu era criança e que até hoje eu acho uma excelente ferramente para incentivo à leitura e escrita. Como algumas pessoas ficaram curiosas para saber mais, fiz esse vídeo explicando um pouquinho como funciona. Espero que vocês gostem. =)

O que faz uma criança gostar de ler? (Ou: o que fazer para que a criança se torne um leitor?)

De vez em quando alguém me pergunta sobre o que fazer para que as crianças gostem de ler. Para falar a verdade por muito tempo eu não soube dizer o que, exatamente, eu faço para que as crianças gostem de ler, porque sempre achei isso muito natural.

Mas para essa aula eu organizei um pouco as ideias para mostrar minha visão sobre esse assunto (que não é lá muito convencional) e os princípios que eu sigo quanto a essa questão de incentivo à leitura.

Essa é uma das aulas do Curso Ensinar a Estudar, mas estou deixando como vídeo aberto para quem tiver interesse, tá? Está lá no canal mas você pode ver aqui:

 

=)

Livros para Leitura em Voz Alta

De vez em quando alguém me pergunta sobre bons livros para as crianças. Na verdade eu não conheço muitos livros. Embora tenha lido bastante quando era criança e adolescente, apenas recentemente comecei a ler – e reler – com um olhar mais voltado para as questões que considero importantes.

Há quem considere que o importante é que a criança aprenda a amar os livros, não importa qual. De minha parte penso que o importante não é amar os livros, mas amar os bons livros e todo o tesouro que eles contêm.  Como tudo na vida, a sabedoria está em aprender a amar as coisas certas. Na segunda parte do ebook “Leitura em voz alta” eu expliquei  os critérios que eu uso para avaliar um livro (padrão de linguagem, conteúdo/ mensagem transmitida, ilustrações e beleza da história), porque creio que essa base permite que você vá além da lista de livros indicados.

Mas para quem gostaria de dicas mais diretas para a hora das compras, vou falar aqui sobre alguns livros que eu considero muito bons para o momento da leitura em voz alta. Algumas indicações estão lá no ebook também. (Os que estão em azul são livros que usaremos nas próximas edições do Programa Valores e Virtudes, caso você já queira se programar).

Livros ilustrados

  • As aventuras de Pedro Coelho – Beatrix Potter: Sou apaixonada por esse livro!Pedro Coelho É daqueles que só de olhar eu já fico feliz. São quatro histórias diferentes: A história de Pedro Coelho, A história do coelhinho Benjamin, A história dos coelhinhos felpudos e A história do Sr. Raposão, todas ricamente ilustrados pela própria autora. Não é sem razão que os livros de Beatrix Potter tenham causado impacto sobre a imaginação e vida do autor das Crônicas de Nárnia, C.S. Lewis, que a cita em seu livro “Surpreendido pela alegria”. Minha edição é da Companhia das Letrinhas, creio que a única que temos atualmente no Brasil. Espero que em breve a coleção completa seja publicada.

 

  • O mágico de Oz e outras histórias encantadas para crianças: Embora prefira os textos integrais, gostei muito das ilustrações desta adaptação (as ilustrações de dentro, porque não gostei muito da capa). São quatro histórias clássicas que têO mágico de Ozm meninas como protagonistas (o que não quer dizer que sej20170812_134602-e1511473561610.jpgam histórias só para meninas): O mágico de Oz, A princesinha, O jardim secreto e Heidi. Editado pela Quarto Publishing, é uma boa opção para os momentos de leitura para as crianças pequenas.

 

  • Robin Hood e outras histórias de aventuras para crianças: No mesmo estilo, robinesta edição apresenta adaptação de quatro histórias clássicas, desta vez com homens como protagonistas: Robin Hood, As aventuras de Tom Sawyer, Robinson Crusoé e Vinte mil léguas submarinas. Igualmente, pela beleza das ilustrações, creio tratar-se de um livro interessante para as crianças pequenas.

 

  • A última canção de Bilbo – J.R.R. Tolkien: Uma excelente forma de introduzir as Aultimacançãobilbocpcrianças pequenas – ou não tão pequenas assim – ao mundo do pequeno Hobbit <3. Os belos versos, combinados às ilustrações cheias de detalhes e cores produzidas pela talentosa Pauline Baynes, encantam as crianças e são especialmente emocionantes para aqueles que já leram a história do Hobbit. No Brasil, é editado pela Martins Fontes.

 

Livros Clássicos:

  • O vento nos salgueiros – Kenneth Grahame: Um livro belíssimo que conta ao vento nos salgueiros história de quatro amigos: o Rato, o Toupeira, o Texugo e o Sapo. Cada um possui uma personalidade marcante e o enredo fala muito sobre amizade, preferências, vida no campo e vida na cidade. Tudo de forma muito suave e poética. A edição que eu tenho é com tradução de Ivan Angelo, publicado pela Editora Moderna, selo Salamandra. Por usar animais cativa a atenção das crianças pequenas, enquanto seu conteúdo fala muito ao coração dos adultos também.

 

  • Coração – Edmondo de Amicis: Um dos livros mais bonitos que já li. Trata-se do 20170503_120748diário de Enrico, um menino italiano que retrata os acontecimentos do dia a dia, especialmente com relação aos amigos de escola. As narrativas, porém, mostram tudo pela perspectiva dos mais nobres sentimentos que envolvem a vida humana, inspirando valores como coragem, honra, amor à pátria e respeito à dignidade humana. A tradução de Nilson Moulin, na publicação da Cosac Naify, é excelente. Pode ser bem entendido por crianças de 8 ou 9 anos. Infelizmente esta edição está esgotada. Só pode ser encontrado em sebos ou livrarias que trabalhem com livros usados.

 

  • As aventuras de Pinóquio – Carlo Collodi: Para quem conheceu a história de PinóquioPinóquio por meio das adaptações ou filmes de animação, este livro é uma imensa surpresa. A história do autor italiano apresenta detalhes e situações bem diferentes das adaptações cinematográficas e impressiona pelos dilemas vividos pelo boneco de madeira em sua luta consigo mesmo ao longo de sua jornada para se tornar um menino. Sua leitura é muito fácil e atrativa para crianças a partir dos 3 ou 4 anos. Gosto da edição da L&PM Pocket, com tradução de Carolina Cimenti e algumas ilustrações originais de Attilio Mussino.

 

  • A princesa e o Goblin – George MacDonald: O livro conta a história de Irene, uma princesa que vivia em uma casa afastada do reino, próximo à mina onde ela viveráA princesa e o Goblin grandes aventuras. É uma história que mostra como uma menina pode ser corajosa e ao mesmo tempo gentil e educada. Seu amigo Curdie também demonstra inteligência e bravura, além de outros valores que se destacam no transcorrer da história. George MacDonald influenciou outros autores como C. S. Lewis, Mark Twain e Lewis Carroll. Foi publicado pela Landy Editora, com tradução de Keila Litvak, mas sua edição está esgotada. Só pode ser encontrado em sebos e livrarias que trabalhem com livros usados.

 

  • Uma casa na floresta – Laura Ingalls Wilder: Já ouvi falar faz uns bons anos sobre essa autora, mas só esse ano fui ler. A escritora americana produziu a série de livros Little House, onde conta, sob a forma de história, os acontecimentos do dia auma casa na floresta dia de sua família em meados do século XIX. Estas histórias deram origem a uma série de televisão que no Brasil é conhecida como “Os pioneiros”. Este é o primeiro dos livros e é realmente difícil não se encantar com os detalhes que mostram um estilo de vida tão rústico e ao mesmo tempo tão saudável e feliz. No Brasil esta série foi lançada pela Editora Record numa edição (atualmente esgotada). Os livros estão sendo reeditados em uma versão mais simples, mas por enquanto apenas os três primeiros estão disponíveis. Tem algumas ilustrações bem simples de Maurício Veneza e tradução de Joana Faro.

 

  • O jovem fazendeiro – Laura Ingalls Wilder: Embora “Uma casa na floresta” seja o
  • Teenager with milk mais comentado, esse foi, dentre os dois, o que eu mais gostei. O segundo livro da série conta a história da família do pequeno Almanzo, que quando adulto se tornaria o esposo de Laura Ingalls. Assim como o primeiro, narra com detalhes vívidos a rotina que eles viviam e como obtinham seu sustento das plantações e criações de animais. Impressionante perceber como o trabalho realmente fazia parte da vida, e também a disposição com que todos da família se envolviam nas atividades diárias da fazenda e da casa. A tradução é de Constantino Paleólogo. Os dois primeiros livros da série podem ser compreendidos por crianças a partir dos três ou quatro anos.

 

  • O Hobbit – J.R.R. Tolkien: Embora o tamanho do livro impressione um pouco, esteDaniel Pereira é também um ótimo livro para leitura em voz alta. Com um enredo cheio de aventuras e emoções, a história do Hobbit é também uma narrativa sobre coragem, amizade, honra e sacrifício, além da constante presença da Providência. Algumas passagens são muito marcantes e produzem impressões profundas no coração. No Brasil é editado pela Martins Fontes com tradução de Lenita Maria Rímoli Esteves. O livro pode ser melhor compreendido por crianças a partir dos sete ou oito anos.

 

  • O mágico de Oz – L. Frank Baum: Embora no Brasil esta seja a história mais conhecida, “O mágico de Oz” foi apenas o primeiro de uma série de 12 livros queo mágico de oz1 fizeram grande sucesso entre as crianças na época em que foram escritos, e assim continuam. Uma questão curiosa é que, apesar da explicação do autor no prefácio do livro, quanto à sua intenção de não escrever uma obra que tivesse ensino moral e fosse apenas divertida, este livro na verdade apresenta personagens com muitas virtudes como coragem, bondade, trabalho e humildade. A narrativa leve e dinâmica atrai a atenção e facilita a compreensão mesmo dos pequenos de três ou quatro anos. Minha edição é da Zahar, com tradução de Sergio Flaksman e ilustrações originais de W.W. Denslow.

 

  • Robinson Crusoé – Daniel Defoe: Meu amigo Leonardo Galdino indicou muito esse livro e eu não sei por que demorei tanto para começar! Um dos primeiros livros robinson crusoéescritos sob a forma de romance – uma narrativa mais longa e complexa do que o conto –, a história do jovem marinheiro que viveu sozinho em uma ilha vai muito além de uma série de aventuras. Este é um livro com uma narrativa bastante introspectiva e as reflexões da personagem sobre seu comportamento, pensamentos e crenças são muito marcantes. Me impressiona que esta obra não esteja entre as leituras básicas do currículo escolar. Por ser um estilo um pouco mais denso, será melhor compreendida pelas crianças maiores, talvez já aos onze ou doze anos. Minha edição é da Penguin Companhia com tradução de Sergio Flaksman e apresenta notas de rodapé bastante esclarecedoras.

 

  • Heidi: a menina dos Alpes – Johanna Spyri: A linda história de uma menina órfã de cinco anos que foi deixada para viver com seu avô, um senhor que todosHeidi 1Heidi 2conheciam como rancoroso e que vivia isolado em sua cabana nos Alpes. Uma narrativa leve, mas muito bonita, e que fala sobre gratidão, fé e a alegria dos relacionamentos entre amigos e família. As descrições dos lugares são arrebatadoras e capazes de levar qualquer um a se imaginar ali sentado apreciando a natureza na companhia da menina. A edição da Autêntica está dividida em dois volumes com tradução de Karina Janini e tem algumas ilustrações em preto e branco de Jessie Willcox Smith. É uma graça. Crianças de quatro ou cinco anos já conseguem entender a história.

 

  • As Crônicas de Nárnia – C.S. Lewis – Estes acho que dispensam comentários (emboranarnia eu desconfie que o número de pessoas que têm o livro seja bem maior do que o de pessoas que de fato o leram). Algumas crônicas, especialmente O sobrinho do mago e O leão, a feiticeira e o guarda-roupa, eu já li incontáveis vezes, especialmente por usar muito em sala de aula. E o fascinante é que eu nunca me canso, nunca acho que já li demais. Amo ver como crianças e adolescentes se envolvem com a história e sonham um dia poder visitar as terras de Nárnia!rs Enfim… Esses livros (esse da foto é o volume único, mas são sete diferentes livros) são um tesouro!

 

  • Livros de Jane Austen – Inicialmente não tinha colocado, mas pensando naqueles jane austenque já tem um vocabulário mais desenvolvido, recomendo vivamente! Jane Austen acabou ficando marcada como uma escritora “para meninas”, mas eu realmente acredito que a leitura de Orgulho e Preconceito ou Razão e Sensibilidade pode acrescentar muito a toda gente! São histórias escritas com humor – geralmente irônico – e cheias de inteligência. Mas, mais que isso, ajudam a compreender a vida e os relacionamentos de forma muito mais profunda e bela do que as narrativas sentimentalistas de nossa época. Minha edição é da Martin Claret.

 

Livros que já vi outras pessoas recomendando muito:

Embora muitos outros sejam comentados, vou colocar aqui alguns livros que, embora não tenha lido ainda, são indicações que recebi de pessoas em cuja avaliação eu confio.

  • Os meninos da rua Paulo – Ferenc Molnár. Minha amiga Robs Moura tem me falado os meninos da rua paulomuito desse livro que eu peguei emprestado para começar logo a ler. O autor é húngaro (nunca tinha lido um livro de um autor húngaro!). Ainda estou no início mas ela já me disse que a história é linda e que lembrou muito desse livro enquanto lia o que eu escrevi sobre os livros que conseguem traduzir em palavras a beleza da vida. A edição que estou lendo é da Cosac Naify, com tradução de Paulo Rónai.

 

  • Um urso chamado Paddington – Michael Bond. Esse é outro sobre o qual já ouvi falar bastante. Um dos favoritos da literatura infantil inglesa, está na minha lista para logo mais. Eu sei que temos, em português,paddington também “Os segredos de Paddington”. Em inglês a série é enorme. Contei aqui trinta diferentes livros, embora não tenha certeza de quantos são no total.

 

  • Livros do Roald Dahl. O Leonardo Galdino também já me falou muito sobre esses livros e eu estou com a impressão de que quando ler vou me Matildaroald dahlsperguntar por que demorei tanto. Para quem, como eu, não conhecia pelo nome, Roald Dahl é o autor das histórias que se transformaram em filmes célebres como “A fantástica fábrica de chocolate”, “Matilda” e, recentemente, “O bom gigante amigo”.

 

  • Momo e o Senhor do Tempo/ A história sem fim – Michael Ende – Estes dois livrosa história sem fimmomo estavam na lista de leituras que o meu amigo William Campos da Cruz indicou para os meus alunos quando eles o entrevistaram. E dentre todos os indicados, estes foram os que mais me surpreenderam, porque ele falou com muito entusiasmo sobre ambos e eu não tinha sequer ouvido falar.

 

Outra indicação que fiz no ebook foi o blog “Regando a Imaginação”, da Teresa Magacho. Ela era ainda menina quando começou a resenhar os livros que lia, de forma que hoje é possível encontrar mais de cento e cinquenta livros (em sua maior parte, clássicos) e conhecer melhor antes de se aventurar na leitura.

Bom, não coloquei aqui as indicações de coletâneas nem de poemas, mas acho que já dá para se inspirar bastante…rs

Se vocês conhecem outros imperdíveis, podem indicar aqui nos comentários que eu vou atrás.

Boas leituras!! =)

 

Valores e Virtudes: Como tudo começou

Eu estou realmente entusiasmada e feliz pelo privilégio de desenvolver um Programa de Formação de Leitores como esse e achei que a melhor forma de explicar melhor como ele funciona, seria contando como ele chegou até aqui. Só Deus cria a partir do nada, nós não. Por isso quero mostrar quantas pessoas e ideias foram somadas para que o “Valores e Virtudes” nascesse.

Tudo começou no final de 2016, quando o Márcio Carvalho, meu amigo e diretor da Escola Municipal Manacá, em Itapecerica da Serra, me desafiou a elaborar um plano de leitura dos clássicos da literatura para os alunos do primeiro ao quinto ano da escola. A intenção do projeto era incentivar a formação do hábito da leitura, proporcionando às crianças o acesso a textos de qualidade, com escrita devidamente elaborada e observando as normas cultas da linguagem – em oposição intencional à tendência moderna de subestimar a inteligência das crianças oferecendo textos exageradamente simplificados e adaptados. Por isso a escolha pelas obras clássicas, que de possibilitam a própria formação do leitor, trabalhando tanto na educação do caráter quanto na habilidade de desenvolver-se intelectualmente enquanto lê, como ensinado por Mortimer Adler, referência muito forte em todo o trabalho desenvolvido aqui.

Comecei então a pesquisar obras que poderíamos usar, e pensar em estratégias que fossem viáveis – porque afinal os professores já têm mil e uma atribuições diferentes e eu não adianta ter ideias bonitas que no final sejam impraticáveis. Pois bem. Em janeiro desse ano, quando realmente resolvemos levar a ideia a sério, percebi que essa abordagem com obras clássicas não é tão simples porque exige um trabalho específico por parte dos pequenos leitores. Basicamente, a capacidade leitora da maior parte das crianças de hoje não lhes permite compreender essas obras. Temos então dois caminhos: 1) oferecer a versão original e deixar que as crianças arrumem um jeito de entender, 2) trabalhar para que elas desenvolvam o nível adequado dessa capacidade leitora, ou 3) adaptar e simplificar as obras, trazendo-as para o nível em que elas estão. Como é fácil perceber, a maior parte das escolas e professores escolhe a terceira opção (tanto que, de algumas obras, foi difícil encontrar nas livrarias o texto integral, porque a grande procura é pelos textos adaptados). Bom, como nunca me conformei com isso, mas também não deixaria as crianças sem auxílio, resolvi tentar o segundo caminho: oferecer um texto com certo nível de complexidade vocabular ou estrutural, mas ao mesmo tempo trabalhar para que os alunos alcancem o domínio das técnicas necessárias para que a compreensão de fato aconteça.

Alguns anos atrás o próprio Márcio, diretor da escola, havia me falado sobre os materiais do Instituto Alfa e Beto. Até então eu desconhecia completamente as teorias e técnicas para o desenvolvimento da fluência de leitura – assim como a maior parte dos pedagogos e professores do Brasil e de outros tantos países, o que é uma verdadeira tristeza. Como desde então vinha estudando sobre isso e aplicando as estratégias com meus alunos, tanto na sala de aula como no trabalho de tutoria, achei que seria interessante incluir no programa essa outra área: o desenvolvimento da capacidade leitora.

Neste meio tempo, o amigo e também pedagogo Igor Miguel me marcou em um post sobre uma palestra do Dr. Mark Pike sobre a influência de C.S. Lewis na educação moral, porque tanto Lewis quanto a formação moral são temas que nos interessam muito na área da educação. E foi pesquisando sobre essa palestra que fiquei conhecendo o projeto Nárnia’s Virtues (Virtudes de Nárnia), da Universidade de Leeds, na Inglaterra, cuja proposta é ensinar as virtudes por meio das Crônicas de Nárnia, num trabalho conjunto com outras instituições que têm investido em pesquisas acadêmicas sobre a Educação do Caráter, que busca oferecer o conhecimento e prática das virtudes.

Educação do Caráter é um tema que me interessa desde meus tempos de faculdade – talvez até antes, porque sempre soube que educar não se trata simplesmente de formar mentes brilhantes. Cada vez mais as famílias, professores e pensadores ligados à área da educação têm se preocupado em buscar uma abordagem que não se limite a trabalhar para que o aluno seja aprovado em vestibulares e concursos públicos e tenha uma carreira de sucesso, mas em prepará-lo para a vida. Enquanto assistimos, impressionados, à decadência moral da sociedade em que vivemos e presenciamos o fim trágico protagonizado por homens e mulheres que não foram capazes de lidar com os problemas, tomar decisões prudentes ou simplesmente assumir suas responsabilidades, percebemos que os diplomas pendurados na parede, notas no vestibular ou a quantia que uma pessoa tem em sua conta bancária não farão qualquer diferença quando ela estiver frente a uma situação que exija virtudes como a coragem, integridade, compaixão ou disciplina.

Nesse ponto me lembrei de um dos projetos que o Paulo Cruz – também meu amigo, e também professor – havia desenvolvido com seus alunos, ensinando as virtudes cardeais por meio de histórias. O foco desse trabalho era a formação da imaginação moral, um tema sobre o qual o Paulo tem estudado e ensinado, com base não apenas no próprio C. S. Lewis, mas também em Tolkien, Chesterton, George MacDonald e Russel Kirk. Trata-se da busca por nutrir a memória com imagens que, extraídas das histórias e experiências vividas, formarão o arcabouço moral que norteará as atitudes da pessoa por toda a vida. Escolhi então quinze virtudes que seriam ensinadas por meio de contos tradicionais, antes que os alunos começassem o trabalho com os livros. E foi assim que o terceiro eixo foi incluído ao programa por meio das aulas de Literatura com o Estudo das Virtudes.

Além das três áreas, decidi deixar claro os valores que norteariam e permeariam todas as atividades do programa. Destes, os mais difíceis seriam dois: a beleza e a erudição. Difíceis porque vivemos tempos em que a beleza é considerada relativa e a busca pela erudição é considerada uma afronta. Embora eu deva ao trabalho do L’Abri e a Roger Scruton minha compreensão de que a beleza realmente importa, creio que só tomei coragem mesmo de defender valores como esses num projeto educacional porque vi isso ser realmente aplicado no Programa AMO de Literatura, desenvolvido por Elizabeth Youmans, que usamos com os alunos do CRE nas aulas de Literatura – e que eu amava tanto quanto as crianças. Foi a Ana Beatriz Rinaldi, a quem tomo a liberdade de chamar de mentora, quem primeiro eu ouvi falar sobre a importância da leitura em voz alta, dos livros clássicos, da erudição e da beleza na Educação. Foi ela também quem me apresentou o Programa AMO e que tem me incentivado para que projetos como esse se tornem realidade em meio ao caos estabelecido pela pedagogia moderna.

Não tenho como explicar como foi o momento em que todas essas influências e ideias se somaram e fizeram sentido na minha mente, mas garanto que foi emocionante. Assim, passei então o mês de fevereiro inteiro escrevendo o Guia do Professor, com a apresentação do programa, fundamentação e explicação das estratégias, e depois de alguns encontros de formação com os professores, no início de março o projeto começou “pra valer”.

O que tem acontecido depois e os detalhes de cada uma dessas áreas eu conto depois, mas estes foram os caminhos que conduziram o Programa “Valores e Virtudes” a seu formato atual. O programa fundamenta-se na convicção de que esta deve ser uma das prioridades da educação escolar: formar leitores. Não somente ensinar a ler, no sentido de decodificar letras, mas ensinar a arte de ler – uma arte que, assim como as outras, requer tanto o domínio da técnica quanto as habilidades de imaginar, encantar-se e pensar. O objetivo final do programa é criar na escola um ambiente fértil que contribua para formar alunos capazes tanto de conhecer o mundo e suas ciências por meio da leitura, como de atuar nele de forma íntegra e plena. Conhecimento que se traduz em vida.

Cinco ervilhas numa vagem

Sabe aquelas histórias que chegam como se fossem um presente? Essa eu encontrei enquanto pesquisava as histórias para o Programa Valores e Virtudes. Tão linda! Por isso eu gosto tanto dos contos… Por isso eu gosto tanto de Andersen! Nem vou falar mais. Deixemos que a história fale por si mesma:

Eram cifivepeasnco ervilhas numa vagem. Estavam verdes e verde estava a vagem, e assim criam que todo o mundo era verde e estava absolutamente certo! A vagem cresceu e as ervilhas cresceram. Acomodaram-se conforme os cômodos da casa. Estavam em fila, disciplinadamente sentadas… O sol brilhava lá fora e aquecia a vagem; a chuva tornava-a clara. Era confortável e bom, iluminado de dia e escuro de noite, tal como devia ser, e as ervilhas tornaram-se maiores e sempre mais pensativas, assim como estavam, sentadas, pois algo tinham de fazer.

– Ficarei sempre sentada aqui? – disse cada uma delas. – Ao menos que não endureça de estar tanto tempo sentada. Passa-se comigo tal como se passa com qualquer coisa lá fora? Pressinto que sim.

Decorreram semanas. As ervilhas ficaram amarelas e a vagem ficou amarela.

– Todo mundo ficou amarelo! – disseram elas, e bem podiam dizê-lo.

Sentiram, então, um puxão na vagem. Foi arrancada, foi para mãos de homem e para o fundo de uma algibeira de jaqueta com outras vagens cheias.

– Vai se abrir em breve! – disseram elas; e ficaram à espera.

– Gostaria agora de saber quem de nós fará mais! – disse a ervilha menor. – Sim, vai ser agora.

– Aconteça o que tem de acontecer. – disse a maior.

“Craque!”, rebentou a vagem, e todas as cinco ervilhas rolaram para fora, para a clara luz do sol. Estavam na mão de uma criança. Um rapazinho as segurava e dizia que eram ervilhas próprias para sua espingardinha de brincar. E logo uma ervilha foi para dentro da espingarda e foi disparada.

– Agora vou voar pelo mundo afora! Agarra-me, se puderes! – e assim desapareceu.

– Eu – disse a segunda – voo diretamente para o sol, que é uma verdadeira vagem e muito conveniente para mim. E lá se foi.

– Dormirei onde for – disse cada uma das outras duas. – Mas andaremos bem para a frente! – e rolaram para o chão antes de entrarem na espingarda, mas lá para dentro foram. – Ainda conseguiremos mais!

– Aconteça o que tem de acontecer! – disse a última, e foi disparada para o ar. E voou para cima, para a velha tábua por baixo da janela do sótão, precisamente para dentro de uma fenda, onde havia musgo e terra fina. Para lá voou e o musgo se fechou sobre ela. Aí ficou esquecida, mas não esquecida por Deus.

– Aconteça o que tem de acontecer! – disse.

Dentro do pequeno sótão morava uma pobre mulher, que durante o dia saía para limpar fogões; sim, serrar lenha e fazer trabalhos pesados, porque tinha força e era diligente, mas bastante pobre continuava sendo. E em casa, no pequeno quarto, estava deitada a filha única, raquítica. Era tão magra e débil! Todo um ano estivera de cama e parecia pairar entre a vida e a morte.

– Vai para junto da irmãzinha – disse a mulher. – Tive duas filhas. Era bastante difícil para mim cuidar das duas, mas Deus partilhou comigo e tomou uma para si. Agora queria muito manter a segunda que ainda tenho, mas parece que Deus não as quer separadas e ela vai para junto da irmãzinha!

Mas a doentinha não foi. Ficava deitada paciente e sossegada todo o dia, enquanto a mãe andava fora para ganhar alguma coisa.

alicehaverspeablossomEra primavera e bastante cedo de manhã, precisamente quanto a mãe ia para o trabalho. O sol brilhava maravilhosamente e banhava o chão através da janelinha, e a doente olhava na direção da vidraça mais baixa.

– Que é aquela coisa verde que brota junto à vidraça? Agita-se ao vento!

E a mãe foi à janela e abriu-a um pouco.

– Oh! – disse ela. – É com certeza um ervilhinha que espigou com finas folhas verdes. Como veio parar aqui nesta fenda? Aí tens já uma pequena horta para ver!

E a cama da doente foi arrastada para mais perto da janela, onde podia ver a ervilha germinando, e a mãe foi para o trabalho.

– Mãe, creio que estou melhorando! – disse à noite a menininha. – O sol brilhou hoje tão quente dentro de mim! A ervilhinha medra tão bem! E eu também quero medrar e me levantar e ir para fora, para o sol.

– Oxalá fosse assim! – disse a mãe, mas não acreditava que isso acontecesse. Contudo, junto ao rebento verde, que trouxera alento à criança, colocou um pauzinho para ele não se quebrar com o vento e atou um cordel à tábua e à parte superior do caixilho, para que a gavinha da ervilha pudesse ter algo em que se segurar e enrolar quando crescesse. E assim foi, podia-se bem ver todos os dias como crescia.

– Não pode ser! Já tem flor! – disse a mulher uma manhã, e ficou esperançosa e confiante que a menininha ficasse boa. Veio-lhe ao pensamento que nos últimos tempos a criança falara mais vivamente. Nas últimas semanas tinha-se erguido da cama, sentando-se a olhar com os olhos brilhantes para o seu ervilhal de uma só ervilha. Uma semana depois, a doente esteve levantada por uma hora. Feliz, sentou-se ao sol quente. A janela estava aberta e lá fora havia, completamente desabrochada, uma flor branca e vermelha de ervilha. A menininha curvou a cabeça e beijou suavemente as folhas finas. Foi como um dia de festa esse dia.

– Foi Nosso Senhor que a plantou ele próprio e fê-la medrar para te dar esperança e alegria, minha querida filha, e também a mim! – disse a mãe contente, sorrindo para a flor, como se para um anjo de Deus.

Mas… E as outras ervilhas? Bem, aquela que voou pelo mundo afora, “Agarra-me se puderes!”, caiu na goteira de um telhado, foi parar no papo de um pombo e lá ficou como Jonas na baleia. As duas indolentes mais não fizeram, foram comidas também pelos pombos, e a isso se pode chamar ser de sólida utilidade. Mas a que queria ir par ao sol… Caiu na valeta e aí ficou dias e semanas, na água choca, onde, na verdade, se tornou muito grande.

– Estou ficando tão maravilhosamente gorda! – disse a ervilha. – Assim vou rebentar e volto a crer que nenhuma ervilha pode fazer ou fez mais. Sou a mais notável das cinco ervilhas da vagem!

E a valeta deu-lhe aprovação.

Mas à janela do sótão estava a menininha de olhos brilhantes, com o fulgor da saúde nas faces, e juntou as finas mãos sobre a flor da ervilha e agradeceu por ela a Deus.

– Eu sou pela minha ervilha – disse a valeta.

Hans Christian Andersen

Do livro “Contos de Hans Christian Andersen” – Edições Paulinas

As aventuras de Pinóquio

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Confesso: Pinóquio era uma das histórias que eu conhecia “de ouvir falar”. Um bonequinho de madeira feito pelo Gepeto, que mentia e o nariz crescia e era isso… Agora, para o Programa de Formação de Leitores, estou lendo as histórias e esta me surpreendeu – muito mesmo!! Especialmente por perceber que, embora ele fosse um boneco, Pinóquio representa os dramas de um coração humano, muito humano! E embora esteja cheio de ensinos sobre a importância do trabalho, do estudo e do cuidado com o próximo, “As aventuras de Pinóquio” é, antes de tudo, um livro sobre redenção, perdão e Graça. Como disse meu amigo William, #somostodosPinóquio.

Ah, como precisamos voltar aos clássicos!!!