A ocupação de cada um

Ainda é cedo para falar sobre a morte do menino na ocupação da escola ou já deu para perceber que esse negócio está muito errado?

Porque às vezes eu me pergunto se tudo isso ainda tem jeito… Me pergunto se em algum momento os problemas se tornarão tão terríveis que todos vão parar e olhar para trás se perguntando: quando foi que nós nos perdemos desse jeito?

Quando foi que abandonamos a ordem das coisas? Quando foi que deixamos de acreditar que existe uma razão pela qual os filhos devem obedecer aos pais?
Quando foi que nos convenceram que adolescentes podem ocupar escolas como bem entendem enquanto os adultos todos ficam olhando de longe como se nada pudessem fazer?
Quando foi que nos tornamos incapazes de educar, disciplinar e mostrar-lhes o caminho?
Quando foi que permitimos que o canto das sereias de pessoas mal intencionadas os levassem para longe de nós e lhes dissessem o que fazer?
Quando foi que os deixamos à mercê de suas próprias decisões e vontades sem exigir que assumam a responsabilidade por seus atos?
Quando foi eles se tornaram a autoridade?
Quando foi que abandonamos a ordem das coisas?
Quando foi que nós nos perdemos desse jeito?

Queridos pais e mães:

Por favor, coloquem seus filhos para ajudar na limpeza da casa!
Ouvir crianças de 9, 10 anos dizendo que não fazem nada em casa “Deus me livre” é uma tristeza, mas ouvir crianças dizendo que “minha mãe é que tem que fazer” é muito mais.

Gente, não se trata só de preparar as crianças para o caso de um dia precisar fazer. Se trata de ensinar a criança a ter um coração bom. Se trata de ensinar que ela não está aqui para ser servida por todo mundo (tem crianças que realmente acham que todos ao seu redor estão ali para servi-los e isso é muito triste!). Se trata de ensinar a valorizar o trabalho de quem limpa, se colocar no lugar do outro, aprender que é responsável por seu próprio espaço…

Crianças dessa idade já podem muito bem passar a escovinha no vaso sanitário, limpar a pia do banheiro, secar e guardar louça (na minha opinião podem lavar, inclusive), varrer a casa, dobrar a roupa lavada, tirar pó, tirar o lixo… Tanta coisa!

Não dá para fazer tudo? Não tem problema. Faz uma tabelinha, como minha mãe fazia, e cada dia um da casa é responsável por uma tarefa. Se você quer proteger seu filho, eu entendo. Mas deixa eu dizer uma coisa: mais do que ser protegidas do “sofrimento” de limpar um banheiro, as crianças precisam ser protegidas do egoísmo e de tudo o que pode corromper seu próprio coração. Se você espera que um belo dia seu filho vá acordar, já adolescente, ou adulto, e dizer: bem, chega de ser servido. Agora eu vou ser humilde, trabalhador e bom, lamento dizer: não vai.

Sobre meninas e Barbies

Mera opinião:

O problema das meninas não é a Barbie, não é a moda, não está nas modelos nem nas vitrines. O problema é que elas estão crescendo voltadas para a direção errada, sendo ensinadas a formar sua identidade olhando para fora, e não para dentro.

Quando uma criança é ensinada a saber quem ela é, nada disso vai importar por muito tempo. Ela pode ter uma crise ou outra com aquilo que o mundo diz que ela deve ser, mas logo vai perceber que isso é vazio e fraco demais comparado ao que ela tinha quando era ela mesma.

Nada contra fazer Barbies de todas as formas e tamanhos. Isso é legal. Mas precisamos cuidar pra não mudar o foco. Os valores da família são uma influência muito mais poderosa sobre a identidade de uma criança do que qualquer fator externo. Não tem Barbie nesse mundo que convença uma menina a usar roupas curtas ou maquiagem carregada quando ela tem pais que lhe ensinam, todos os dias, com seu exemplo e palavras, o que é ser uma mulher verdadeira e modesta.

Por isso penso que não deveríamos gastar tanto esforço e tempo tentando mudar o mundo todo do lado de fora, porque isso não acaba nunca! Uma menina insegura vai entrar em crise com qualquer coisa que ela veja por perto, seja uma propaganda de shampoo ou uma moça feliz que passa do outro lado da rua. Sugiro que economizem suas forças para fortalecer a identidade dos seus filhos e ensiná-los a saber quem eles são e para que eles foram criados. Talvez você até descubra que sua filha não precisa ter uma Barbie para ser uma criança feliz.

Famílias fortes, identidades bem arraigadas. É disso que as crianças precisam. O mais são apenas tentativas de secar o gelo enquanto ele se derrete. O problema é que é complicado ensinar uma criança se eu mesma não sei quem sou. E lidar com isso é mais difícil do que tentar mudar tudo lá fora. Mas é tão bom saber que não existe problema tão profundo que a Graça de Deus não alcance, nem fraquezas que a sua Bondade não possa resolver!

O outro lado do bullying

A cena é comum: no meio da aula alguém faz um comentário sobre uma formiga e o aluno engraçadinho aproveita:
“Uma formiga? Então é a “Fulana”!! – se referindo à colega mais baixinha da sala.
A reação comum da menina seria se levantar furiosa na direção dele, chorando e gritando nervosa.
Mas hoje foi diferente…

***

Comecei a escrever esse texto há uns três anos, quando presenciei uma cena interessante de interação entre os meus alunos e tomei coragem para dizer o que pensava ser o outro lado do bullying. A coragem passou e o texto ficou esquecido. No domingo passado, o início de uma série de reportagens do Fantástico1 sobre o tema foi uma grande motivação para o retorno à conversa por diversas razões. A primeira delas foi a forma estranhamente inadequada com que o assunto foi abordado no programa.

“Eu amo quem sou”

No início do projeto, uma preparadora de elenco (o que uma preparadora de elenco faz nesse tipo de programa já deveria causar certa estranheza), chamada para ajudar as crianças a lidar com o bullying, começa com uma série de exercícios e uma atividade em que todas as crianças são vendadas e induzidas a expressar o que sentem – ou, prefiro dizer, uma atividade em que as crianças são fortemente manipuladas emocionalmente.

Não é preciso ser muito criativo para adivinhar o que vai acontecer quando, enquanto as crianças estão com os olhos vendados, a senhora começa a passear entre eles e vai tocando em seus ombros e perguntando, com voz dramática: “Por onde eu passei? Quem eu perdi? De quem eu tenho saudade? Quem me deixou raiva? Quem me deixou triste? Quem me deu carinho? Quem não me deu?” As crianças e adolescentes, claro, começam a chorar e a dizer, aos prantos, frases como “eu te amo, pai”, e “onde você está?”.

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Qualquer pessoa que já tenha estudado um pouco sobre como funcionam as emoções sabe que é possível induzir as pessoas a determinados comportamentos quando você consegue colocá-las em determinado estado de vulnerabilidade emocional. Eu sempre fui uma pessoa extremamente emotiva e um dia, depois de sentir raiva de mim mesma por ter feito a assinatura de uma revista que eu na verdade não queria, estava lendo um artigo sobre estratégias de marketing e cheguei à brilhante conclusão de que o vendedor tinha usado comigo todas as seis técnicas que estavam ali descritas. E eu tinha caído feito uma patinha boba. Depois disso aprendi que era preciso ser mais esperta para perceber quando alguém estava tentando me induzir a determinadas emoções, seja lá pela razão que fosse.

Pois bem, mas as crianças que foram usadas no programa “Eu amo quem sou” ainda não aprenderam isso. E, acredito, a maior parte dos telespectadores também não. Assim, quando as crianças começaram a chorar e expressar suas dores mais profundas, muito provavelmente a maior parte das pessoas que assistiam ao programa, num movimento de reação empática ao sofrimento das crianças, começaram a sentir-se extremamente comovidas e, algumas, a chorar também. A partir daí, deixaram de analisar a situação de forma crítica, assumindo uma postura passiva e absorvendo abertamente tudo o que o programa quis transmitir. Exagero meu? Ou será que a maior parte das pessoas que assistiam de fato analisaram se o programa estava agindo corretamente ao expor as crianças dessa forma e se esse tipo de campanha é, de fato, a melhor forma de lidar com o problema?

E aliás, por que razão mesmo os psicólogos e demais profissionais precisam garantir o sigilo dos atendimentos realizados, se um programa de televisão vai apresentar os sentimentos mais profundos e as reações emocionais de diversas crianças, transmitindo em cadeia nacional e gravando para quem quiser assistir, hoje ou daqui a dez anos?

As demais razões que me preocupam na série são as mesmas que já tenho há anos com relação ao tema, desde que comecei a pesquisar e refletir sobre a forma como lidamos, na educação, com as questões envolvendo as emoções e caráter das crianças e adolescentes.

O que, afinal, é bullying?

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Bullying é aquele tipo de coisa que todo mundo sabe o que é, mas ninguém tem muita certeza. Você pode encontrar muitos sites, textos e reportagens explicando as características e tudo o mais, mas quando pensar algo como “Tudo bem, mas quem foi que disse o que, exatamente, é bullying? Quem definiu isso e com base em quê?”, então vai perceber que não é tão simples encontrar respostas. O problema é que essa é uma ideia em certo desenvolvimento, e, diga-se de passagem, muito subjetiva.

Pois bem. O conceito de bullying é entendido como um fenômeno onde uma pessoa – geralmente uma criança ou um adolescente – é exposta de forma constante a um comportamento agressivo por parte de um “valentão”, ou “bully”, no inglês, palavra que, com o tempo, deu origem ao termo bullying.

O professor Dan Owleus foi o primeiro a estudar de forma sistemática a ocorrência do bullying nas escolas da Escandinávia, mais especificamente Noruega e Suécia, na década de 19702. Seu objetivo era descobrir o que levava uma criança a praticar o bullying, quais seriam seus efeitos na vida de uma vítima e como esse fenômeno poderia ser minimizado.

Desde então, diversos autores e pesquisadores têm buscado encontrar a melhor definição para o termo, tentando entender o que pode e o que não pode ser considerado bullying. O interessante é que, sendo um termo relativamente novo, é possível encontrar quem queira demonstrar que esse é um fenômeno antigo, citando exemplos da literatura – como nas obras de Shakespeare ou C.S.Lewis – e, indo bem mais longe, nas frases escritas pelo rei Davi, nos salmos bíblicos, quando relatava sua angústia pela perseguição que sofria.3 Exemplo no mínimo engraçado, se você conhece um pouco da história do primeiro rei de Israel. Sinceramente, não creio que Davi concordaria muito com a ideia de dar o nome de bullying ao que viveu enquanto se via obrigado a fugir dos inimigos que buscavam tirar-lhe a vida.

Mas, no final das contas, parece haver um acordo entre os autores quanto a alguns pontos: o bullying se caracteriza por ser repetitivo, sistemático e praticado com a clara intenção de causar dano ou prejudicar alguém que não possui condições de se defender. Alguns autores incluem a necessidade de haver o prazer, por parte do agressor, e a sensação de estar sendo oprimido, por parte da vítima. Pois bem. Assumindo que essas sejam as características que definem o conceito de bullying, isso nos leva a alguns problemas:

  1. A banalização do termo

“O bullying é quando alguém diz alguma coisa que você não gosta”, diz um menino no programa “Eu amo quem sou”. Bom, por definição isso não é bullying. O problema é que depois de uma campanha de conscientização, geralmente a “moda” pega e basta uma criança mostrar a língua para a outra que lá vem a música: “Olha ele! Está fazendo bullying!”. E então você precisa interromper sua aula para explicar: “Não, ele só está sendo bobo. Isso não é bullying”.

E então toca explicar de novo que bullying é um caso de agressão repetitiva, em que a outra pessoa não tem como se defender. E olha… Dá muito trabalho explicar que nem todo incômodo ou mesmo ofensa podem ser considerados bullying. Nesse sentido, programas como essa série “Eu amo quem sou” mais atrapalham que ajudam.

O que acontece é que, com a banalização do problema, logo todo mundo passa a ver o assunto como uma bobeira e os casos realmente sérios são tratados como banais. Não é assim com outras questões? Se toda mulher chata usa como desculpa a TPM, logo essa história de TPM passa a ser vista como bobeira e, enfim, quem realmente sofre com TPM será igualmente desacreditada.

podres de mimadosTheodore Dalrymple, no livro “Podres de Mimados”, cuja leitura, aliás, deveria ser obrigatória para quem quer de fato entender o problema, explica: “Quando reivindicações falsas da condição de vítima se tornam frequentes e bem divulgadas, elas servem para reduzir a simpatia por aqueles que realmente sofreram e para induzir um estado de cinismo. E essas reivindicações fajutas parecem estar ficando cada vez mais frequentes.4

Nesse ponto, a série “Eu amo quem sou” conseguiu fazer do problema um perfeito show de coitadismo e reforçar mais um problema:

  1. O culto à vítima

Bastam alguns minutos em frente a algum desses programas populares de TV ou lendo atualizações do Facebook para entender o que Dalrymple chama, em seu livro, de culto à vítima.

Sofrer de forma extravagante por motivos banais, dramatizar a própria tristeza… Ser vítima está, definitivamente, na moda. Você pode ser vítima da chuva, do motorista de ônibus que não parou ou da pessoa chata que comentou seu post. O importante é demonstrar que você sofreu muito com seja lá o que for e que isso vai causar marcas para o resto da sua vida, porque quanto maior o sofrimento que você alega ter vivido, maior a comoção generalizada que você vai despertar.

“Se antes as pessoas ansiavam por ler os efeitos excepcionais dos exploradores da África, ou dos cartógrafos das imensidões virgens, hoje elas querem ler a respeito de pessoas conhecidas como sobreviventes de traumas, ou que assim se denominam. Dificilmente parece importar que, na maioria dos casos, as experiências a que elas ‘sobreviveram’ não poderiam tê-las matado, e que, excetuando o fato de não terem cometido suicídio, elas dificilmente teriam conseguido não sobreviver; e que, portanto, sua sobrevivência é uma realização um pouco maior do que respirar.”5

O problema, no caso do bullying, é que quanto mais essas campanhas enfatizam o papel de vítima, mais e mais crianças serão levadas a assumir para si a condição de vítima; mais e mais pais verão seus filhos como vítimas; e quanto mais vítimas, mais bullying, e assim continuamos eternamente e cada vez pior.

É difícil convencer as pessoas a pararem de olhar para si mesmas dessa maneira, especialmente porque existe um grande interesse nisso. Quanto mais as pessoas se sintam assim, indefesas e dependentes de socorro externo, mais elas estarão nas mãos daqueles que possuem a “solução perfeita” para lhes oferecer.

É por isso que eu sou fã incondicional e sempre recomendo aos pais dos meus alunos e a todo mundo que eu encontro que conheçam a vida e o pensamento de Ben Carson, hoje pré-candidato à presidência dos Estados Unidos. Com uma trajetória de quem passou de “aluno mais burro da classe” a um neurocirurgião que entrou para a história da medicina, ele afirma:

carsonposing“Muitas pessoas hoje em dia assumem a mentalidade de vítima. Elas têm uma ideia limitada sobre as dificuldades – porque a mentalidade de vítima é exatamente isso. É uma visão de mundo curta, egocêntrica e limitada, onde as lentes zoom de sua atenção ficam tão focalizadas nos obstáculos mais próximos e imediatos que não conseguem ver mais nada. As pessoas com esse foco ficam tão prostradas com suas dificuldades que se sentem paralisadas e impotentes. Então, como não se sentem responsáveis pelos obstáculos aparentemente insuperáveis que as rodeiam, não assumem a responsabilidade de resolver esses problemas. Afinal, elas são ‘vítimas’ – então alguém vai ter de dar um jeito nas coisas.”6

Apesar de tudo isso, é possível que alguém ainda considere a iniciativa dessas campanhas como algo positivo. “Ao menos isso está contribuindo para a formação de um ambiente onde os alunos se tratam com mais respeito”. Ouso dizer que não, não está. Esse ambiente é temporário por uma razão bem simples:

  1. As campanhas antibullying focam nos sintomas, não no problema

Nossa tendência, como educadores, é tratar as situações buscando sempre resolver o problema externamente mas não, ou muito pouco, lidar com a raiz interna, com a causa.

Quando tratamos sobre o tema em escola, assim como na mídia, geralmente nos atemos ao perfil do agressor e no que fazer para que eles deixem o comportamento agressivo. Ora, o prazer daqueles que zombam e agridem é exatamente ver o resultado de suas ações: alguém irritado, envergonhado ou chorando. E isso de fato demonstra que essa pessoa tem problemas que precisam ser resolvidos. Mas precisamos ir mais longe nisso.

O que raramente acontece é uma preocupação com as características comuns às crianças que são consideradas vítimas. É a esse ponto que eu chamo aqui de “o outro lado do bullying”: o que leva uma pessoa a se tornar o que é entendido como “vítima do bullying”?

Por que será que algumas crianças e adolescentes, a despeito de suas características Presentefísicas ou intelectuais, não se tornam alvo de ofensas e brincadeiras constrangedoras? Ou, quando são, por que isso não evolui para um caso de bullying? E por que será que algumas, não importa onde estejam e para quantas escolas se mudem, sempre acabarão sofrendo pelos mesmos motivos? A questão é que o bullying não “pega” em alguém que se sente seguro sobre quem é e não admite certas atitudes. A postura que uma pessoa assume define, em grande parte, a forma como os outros se relacionarão com ela.

Alguém já parou para pensar que, quanto mais indefesa uma pessoa está, maior a chance de que ela se torne uma vítima? Fico com o pensamento de que, quanto mais pessoas souberem se defender, menor será o número daqueles que praticam a violência.

Nesse ponto, a série “Eu amo quem sou” parece acertar em olhar para o problema buscando mudar as atitudes da pessoa que sofre o bullying – o que seria ótimo se não fossem todos os outros problemas da abordagem escolhida pelo programa.

Não se trata de dizer que o sofrimento da criança ou adolescente que sofre bullying não deve ser levado em conta. Muito pelo contrário; ele DEVE. Especialmente para entender por que razão essa criança aprendeu a sofrer dessa forma.

Embora a chamada baixa autoestima seja considerada como resultado da prática do bullying, creio que seria muito importante considerar que as agressões e ofensas geralmente só intensificam e agravam um pensamento que por alguma razão já estava lá: eu me sinto inferior aos outros e não sei como lidar com isso. Aprender a olhar para si mesmo da forma correta é um grande desafio.

E, ao contrário do que parece, essa ênfase na condição de vítima, ao invés de ajudar, está aí para, muito mais, reforçar o trabalho que tem sido feito com maestria pela nossa sociedade atual:

  1. A formação de uma geração hipersensível, extremamente frágil e incapaz de lidar com conflitos.

Quem pode imaginar, nos dias atuais, um pai ensinando ao seu filho com palavras como essas?

Não chores, meu filho;

Não chores, que a vida

É luta renhida:

Viver é lutar.

A vida é combate,

Que os fracos abate,

Que os fortes, os bravos,

Só pode exaltar.

 O poema Canção do Tamoio, de Gonçalves Dias, deve passar longe da maior parte das casas e salas de aula em nossos dias. (“Lutar” seria, no máximo, saber gritar e quebrar tudo para garantir seus direitos). É isso praticamente o que temos buscamos o tempo todo: diminuir ao máximo os problemas e esforços que podem causar algum desconforto ou incômodo às crianças para que elas sejam felizes. E afirmo sem medo de estar errada que estamos causando a elas um mal muito, muito maior.

Dalrymple defende que muitos problemas que vivemos hoje se devem ao o abandono de uma virtude cardeal, a Fortaleza, como ideal cultural.

virtudes
Temperança, Prudência, Fortaleza e Justiça – as virtudes cardeais

Pouco se fala hoje, infelizmente, sobre as virtudes cardeais: temperança, prudência, justiça e fortaleza; essa última sendo aquela que, segundo Lewis, abarca os dois tipos de coragem – a que nos leva a enfrentar o perigo e a que nos leva a suportar a dor”.7 Assim, uma pessoa que nunca desenvolveu a fortaleza seria exatamente o oposto disso: incapaz de enfrentar o perigo e incapaz de suportar a dor.

O que a maior parte das pessoas, inclusive – se não principalmente – os educadores, não parecem perceber, é que coibir e anular qualquer expressão de agressividade e ofensa entre as crianças e adolescentes, embora pareça a coisa certa a se fazer, acaba produzindo mais problemas.

O primeiro é o de impedir que aprendam a expressar corretamente a ira e agressividade quando necessário. Ora, mas que coisa absurda, dizer que a agressividade é necessária! Pois é. Nossa cultura diz que não. Mas veja que interessante: dizem os especialistas que um dos problemas do bullying é que algumas crianças, as chamadas testemunhas,  assistem às agressões sem tomar providências a respeito, mesmo não concordando com a situação. Mas veja: se passamos o tempo ensinando que toda agressividade é ruim, como podemos esperar que eles sejam agressivos o bastante para se opôr à maldade e à violência? Como Lewis já dizia, há muito tempo:

“Produzimos homens sem peito e esperamos deles virtude e iniciativa. Caçoamos da honra e nos chocamos ao encontrar traidores entre nós. Castramos, e ordenamos que os castrados sejam férteis.”.8

Outra coisa que as pessoas parecem não perceber é que proteger as crianças simplesmente proibindo as demonstrações de agressividade contra elas é o mesmo que colocar uma redoma de vidro ao redor de uma the_broken_three_by_spartan19-d5lqy71planta, impedindo que os ventos e intempéries da vida fustiguem seu caule. Ela crescerá, mas quando você tirar a redoma, a primeira chuva será o bastante para quebrá-la ao meio.

Você pode tentar qual caminho for, mas a verdade é que são as dificuldades e conflitos da vida que forjam um caráter forte – desde, é claro, que você tenha aprendido a desenvolver sua força em meio às dificuldades, e não a fugir delas. E, se a solução é abolir o bullying, quem vai ensinar as crianças a reagir apropriadamente às zombarias e ofensas? E como elas aprenderão a ser agressivas da forma correta? E se não vamos ensinar, o que eles farão quando precisarem lidar com tudo isso na vida lá fora?

Alguém poderá argumentar: “Você sabe disso como pessoa adulta, mas uma criança ainda não tem maturidade para lidar com os problemas dessa forma”. Bem pensado; exceto pelo fato de que, se você não ensinar isso agora, quando ele ainda é uma criança, pode ter certeza de que não será por um passe de mágica que ela aprenderá a lidar com isso quando crescer. Quem não conhece casos de adultos que vivem ressentidos com tudo, que sucumbem e desistem face à menor dificuldade nos relacionamentos e trabalho, ou são incapazes de entrar em uma discussão e defender seu ponto de vista sem se sentir profundamente ofendido por aqueles que ousaram discordar deles?

Pois bem, mas apontar os problemas é fácil. E a solução?

Lidando com o problema

Como eu já não tenho mais a pretensão de resolver os problemas do mundo, vou dizer como eu lido, na sala de aula, com essa questão:

1 – Não uso o termo “bullying” com meus alunos. Uso os termos “respeito” e “dignidade”.

Primeiro porque, como já disse, tenho várias razões para não gostar de tudo o que a palavra “bullying” traz consigo. Segundo porque, ao contrário do que pode parecer, eu me preocupo sim com meus alunos. Muito. Tanto com aqueles que demonstram tendências agressivas impróprias quanto com os que tendem a ver a si mesmos como vítimas. Na minha visão, ambos precisam de orientação. E, se uma criança chama a outra de “imbecil”, por exemplo, isso não é um caso de bullying, porque foi um caso isolado, mas um caso de desrespeito, e assim será tratado.

Como trabalho em uma escola confessional, tenho liberdade para ensinar aos alunos a partir da visão cristã. O que tento explicar a eles, durante todo o ano, é que ninguém é obrigado a gostar de ninguém; você gosta de quem você bem quiser. Mas existe um conceito que conhecemos como “Imago Dei” – todo ser humano foi criado à imagem de Deus – e por essa razão, ainda que você não encontre no outro nada que o faça merecedor de respeito (o que, convenhamos, é raro), você precisa saber que ele carrega consigo a imagem de Deus e isso é razão suficiente para que ele mereça ser tratado com dignidade. Foi assim que nasceram os diretos humanos e é assim que trataremos uns aos outros em sala de aula. E, garanto, falar sobre isso em sala é muito mais profundo e belo do que falar sobre bullying.

2 – Eu uso todas as oportunidades possíveis para falar sobre identidade e fortaleza

Uma frase que eu preciso repetir várias vezes ao longo do ano é “O que os outros dizem não definem quem você é.” Geralmente aqui entra, mais uma vez, o conceito de “Imago Dei” e muitas vezes lembro às crianças de que elas foram criadas por Deus, que suas características físicas foram planejadas por Ele e que seu caráter é o que importa acima de tudo. Quando uma criança aprende a valorizar mais o caráter do que as aparências, sua preocupação com o que os outros dizem diminui consideravelmente.

Uma história que eu gosto demais para trabalhar isso está em um livro infantil chamado “Você é Especial”, do Max Lucado. Quando estava falando sobre esse assunto, anos atrás, minha diretora me falou sobre essa história. Confesso que torci o nariz no começo, tanto pelo título quanto pelo autor, mas preciso reconhecer que a história é muito boa e faz muito sentido.

É claro que, em uma criança insegura sobre si mesma, esta maturidade não surgirá em um dia, mas por meio de um longo processo que busque ensiná-la, de forma intencional, a compreensão da sua identidade.

3 – Eu procuro ensinar os alunos a lidar com suas emoções

Lewis afirma, em “A abolição do homem” – outro livro essencial para quem realmente quer lidar com o problema – que a tarefa educacional é “treinar os alunos para que desenvolvam as reações em si mesmas apropriadas, quer eles as tenham quer não, e construir aquilo que constitui a verdadeira natureza humana”.9

Não tenho uma “aula sobre emoções”, mas quando, por exemplo, uma criança chora porque o outro pegou seu lápis sem pedir, eu explico que ele não está reagindo da forma adequada ao problema. “Seu amigo errou em pegar o lápis e você errou em chorar, porque essa não é uma boa razão para chorar.”

Parece uma atitude dura, mas algumas crianças realmente são extremamente irritáveis, de forma que ninguém pode dizer nada sem que se exasperem. E é muito bom quando elas aprendem a reagir da forma adequada às situações. Trago Dalrymple novamente: “A questão não é se deve haver emoções, mas como, quando e em que grau elas devem ser expressadas, e que papel elas devem desempenhar na vida humana.”10

4 – Eu uso, tanto quanto possível, a literatura – a BOA literatura.

A tarefa de treinar as emoções está diretamente ligada com a educação da imaginação – e ninguém faz isso tão bem quanto a boa literatura. Digo boa porque considero que a maior parte dos livros disponíveis voltados para as crianças e adolescentes são pobres em sentido, em qualidade literária e em beleza, e realmente acho que não ajudam em quase nada.

Mas veja o caso do livro que estudamos durante todo o ano em sala, “O leão, a feiticeira e o guarda-roupa”, de Lewis. Edmundo, um dos quatro irmãos que vivem a grande aventura da história, é um menino que “gostava de bancar o mau” e fazer coisas mesquinhas, como humilhar sua irmã mais nova, Lúcia. No entanto, na terra de Nárnia, seu caráter é posto à prova e ele demonstra ser egoísta e fraco.

narniaNo decorrer dos capítulos, enquanto os alunos ouvem e pensam sobre a história, eles passam a conhecer muito bem cada uma das personagens. E, sem sombra de dúvidas, nenhum  deles admira Edmundo nem gostaria de ser quem ele foi, mesmo ele tendo passado por uma grande mudança de caráter. Além de Aslam, a quem as crianças amam, a pessoa a quem eles mais admiram é “Lúcia, a Destemida”.

E este é só um exemplo de como as histórias podem influenciar fortemente o caráter e a identidade das crianças e adolescentes.

Pois bem, essas são, então, minhas sugestões:

Para professores, pais, e todos os que trabalham com a educação, que substituam a série do Fantástico – bem como outras reportagens no estilo – pelas obras de Theodore Dalrymple, C.S. Lewis e Douglas Wilson (este último, embora não tenha citado no texto, é ótimo para pensar a relação entre as campanhas antibullying e a deformação da masculinidade.) Sim, é bem mais fácil assistir a vídeos de curta duração e cheios de lágrimas do que ler esses e outros livros, mas afinal nós somos professores, sacos de batatas ou o que, gente?

Para as crianças e adolescentes, que substituam as campanhas contra o bullying por projetos sólidos de ensino a partir da boa literatura. Que encham suas vidas com toda a riqueza das Crônicas de Nárnia, a coragem tão presente em O Hobbit e O Senhor dos Anéis, os belíssimos e admiráveis valores que marcam as personagens das obras de Jane Austen, e todas as virtudes encontradas nos contos fantásticos. Que ao invés de olhar para si mesmos como vítimas, eles sejam ensinados a lutar pela honra, pela verdade e pela justiça. E que sejam educados para serem homens e mulheres valorosos, cheios de alegria, bondade e força.

****

Ah, sim… A história que comecei a contar no início do texto aconteceu depois de um longo período ensinando a pequena a reagir adequadamente às provocações do colega. Naquele dia, quando ele a chamou de formiga, eu esperava mais um show de choro e braveza. Mas ela respirou fundo, se levantou da carteira, olhou para ele e falou alto:

“Fique sabendo que eu não sou uma formiga. Sou uma criança, exatamente igual você!”

E sentou-se de novo. Depois de um segundo de silêncio, todos da classe começaram a bater palmas. O amigo gozador, sem graça, não disse nada. Foi o começo de uma série de novas atitudes que ela começou a tomar. E foi quando eu decidi escrever o que pensava sobre o outro lado dessa história de Bullying.

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  1. http://g1.globo.com/fantastico/quadros/eu-amo-quem-sou/noticia/2015/11/alunos-tentam-virar-o-jogo-e-superar-o-bullying-em-escola-publica-do-rio.html
  2. RIGBY, Ken. New Perspectives on Bullying. London: JK Publishers, 2002, p. 11
  3. Idem, p. 15
  4. DALRYMPLE, Theodore. Podres de Mimados: as consequências do sentimentalismo tóxico. São Paulo: É Realizações, 2015, p. 140
  5. Idem, p. 152
  6. CARSON, Ben. A grande visão. São Paulo: Editora Vida, 2001, p. 98
  7. LEWIS, C.S. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009. p. 104
  8. LEWIS, C.S. A abolição do homem. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012. p. 24
  9. Idem, p. 19.
  10. DALRYMPLE, p. 78

Futuros Homens: criando meninos para enfrentar gigantes – Douglas Wilson

E então? Meninos e meninas devem ser educados da mesma forma? Como se forma o caráter de um homem de verdade? Acho esse assunto tão importante que fiquei extremamente feliz quando ouvi falar do livro “Futuros Homens”. Ainda nem li, mas já sei que é bom porque quem leu e recomenda é o Leonardo Galdino:

“Um Futuros Homensdos conceitos bíblicos mais preciosos que a igreja contemporânea precisa recuperar e comunicar com absoluta urgência a este mundo caído é o da masculinidade – a verdadeira, não a fingida (macheza, truculência). Ao longo dos últimos anos, sucumbimos diante do igualitarismo. Não conseguimos responder ao feminismo sem temer a pecha de “machista!”. Em outras palavras, não fomos suficientemente… viris. Nesse sentido, a leitura do livro pastor Douglas Wilson é mais que oportuna: é obrigatória. Ou recuperamos a masculinidade em nossos lares, ou mergulharemos de vez no mar sem fim do paganismo.

Ao longo de suas duzentas e onze páginas, o autor vai mostrar que a fé cristã não exclui expressões de virilidade como crianças brincando com armas de plástico; pelo contrário, ela as afirma. Afinal de contas, Jesus Cristo é aquele que matou o dragão, a antiga Serpente. Como filho de Davi, ele subjugou e derrotou o Golias da sua época (Lc 11.21-22). Homens precisam aprender que o mal deve ser combatido, e isso deve começar desde a mais tenra idade. Mas o livro não se limita a isso. Wilson trabalha questões como, por exemplo, bons modos para com as moças. O guerreiro, acima de tudo, é um gentleman. Seus pais tem a responsabilidade de prepará-los para serem bons maridos. A questão da liberdade cristã também é outro tema que permeia a obra. E se o garoto desejar fumar e beber, como os pais devem reagir? O pai deve ensinar seu filho a beber? Para o autor, somente Deus é o Senhor da nossa consciência, e essas coisas não são, em si mesmas, um mal. Mas é possível detectar algumas expressões de idolatria nos filhos em relação ao usufruto de sua liberdade. A verdadeira liberdade é serva. “Quando um filho exige liberdade para fins pessoais, pode estar certo de que alguém sairá prejudicado”, diz. O único ponto realmente controverso do livro é, a meu ver, a visão pedocomunialista (crianças participando da Ceia) do autor, no capítulo sobre Igreja e Culto (cap. 11). Mesmo assim, há muitas percepções dignas de apreciação e reflexão. Em muitos assuntos (e textos bíblicos), o autor consegue tirar leite de pedra.

A leitura é por demais agradável. Percebe-se nitidamente que o autor não foi disciplinado apenas nos livros de teologia, mas sobretudo nos de literatura (a boa literatura, diga-se). Não à toa, o capítulo de que mais gostei foi o 12 (“Gigantes, dragões, e livros”), no qual ele defende a importância do exercício da imaginação (Tolkien, Lewis, Bunnyan) para a formação do homem bíblico.

Mais do que recomendada, a leitura desse livro é, repito, obrigatória. O Centro de Literatura Reformada (CLIRE) está de parabéns por essa publicação em português (2013).”

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Aqui, o próprio Douglas Wilson explicando o que o levou a escrever o livro: