O drama do Plano de Aula

(Acho que esse assunto não tem nada a ver com o clima de fim de ano, mas tudo bem):
Escrevi um mini post lá no Instagram (@educar.com.sapiencia) sobre planejamento e sei que algumas pessoas podem se sentir chocadas ao me ver dizendo que eu não gosto de plano de aula.
Então deixa eu fazer uma breve explicação da minha visão sobre o assunto…
Olha… Penso que um dos males da Pedagogia é trazer as amarras do pensamento moderno que tenta criar sistemas e métodos para tudo – que aliás não é um problema só da Pedagogia, né? Não sei se é por conta do cartesianismo do Descartes, o positivismo de Comte ou a ideia de Herbart de transformar a Pedagogia em uma ciência (eu culpo Herbart por um monte de coisas), mas o fato é que quando faz faculdade você aprende uma série de atividades que o professor tem que cumprir para garantir que a educação seja um sucesso.
O que parece que a Pedagogia ignora solenemente é que nós precisamos criar o hábito de avaliar os resultados dos métodos empregados. Sim, sim… A Pedagogia fala sobre avaliação, todo mundo ama avaliação, e etc, mas eu falo sobre avaliar mesmo, não sobre ficar “fazendo avaliações”, sabe?
Quero dizer, se a Pedagogia fosse uma pessoa que decidiu sentar para avaliar suas práticas profissionais, ela chegaria à conclusão que todas as técnicas e métodos “brilhantes” que ela inventou nas últimas décadas parecem não ser tão brilhantes assim, porque as pessoas não estão aprendendo mais e melhor; elas estão aprendendo cada vez MENOS!
Pois bem. Uma coisas que eu mais gostei na Educação por Princípios foi aprender a importância do princípio da individualidade, ou seja, compreender que cada indivíduo foi criado com características únicas. Na prática pedagógica isso deveria nos fazer pensar que também o professor é um ser com características únicas e que cada professor tem um perfil de trabalho diferente.
Então, se é óbvio que todo aquele que ensina precisa desenvolver estratégias de planejamento e avaliação do seu trabalho, isso não significa que todos que ensinam precisam usar as mesmas estratégias e atividades. Porque o que para uma pessoa funciona maravilhosamente bem, para outra é só uma forma de matar o tempo que ela poderia estar investindo em algo mais produtivo. Claro que nem sempre eu pensei assim. Já cheguei a ensinar sobre a importância do plano de aula para todo professor e a pedir que todos fizessem planos de aula, quando trabalhava com a área de educação na igreja. Mas a gente vai vivendo e aprendendo…
Hoje eu entendo que existem pelo menos dois perfis muito diferentes no que diz respeito a planejamento e execução do trabalho de ensino. Aliás, ontem comecei a preparar uma aula extra para o pessoal que fará o curso Ensinar a Estudar no ano que vem, só para mostrar o que aprendi ao longo dos anos sobre a diferença entre plano de aula e projeto de ensino, e como isso me ajudou a ser uma professora melhor.
No ensino, como na vida, uma das maiores alegrias é descobrir que nós nos tornamos melhores ao desenvolver as características com as quais fomos criados, não ao tentar imitar as estratégias, atitudes e vocação dos outros. Ser autêntico ainda é o melhor caminho para ser bom naquilo que você faz.
Agora… É OBVIO que existem coisas na vida que não acontecerão conforme a minha individualidade (e nesse ponto eu creio que aqueles que educam em casa precisam tomar cuidado para que as crianças não se acostumem com um ensino muito individualizado e personalizado para elas, porque mais tarde elas poderão ter sérias dificuldades para compreender que existem muitas áreas em que somos nós que precisamos nos adaptar ao ritmo da vida, e não a vida que precisa se adaptar ao nosso ritmo, nosso estilo, nossas características. Aliás, contrariando o discurso que se tem ouvido nos últimos dias, eu penso que seria mais produtivo se os pais e professores focassem em seu perfil de ensino do que no perfil de aprendizado da criança. Outra hora eu explico por que penso assim e mostro que não sou só eu que digo isso).
O fato é que eu já fiz MUITOS planos de aula nessa vida, mesmo não sendo uma estratégia que funcionava para mim. Eu fiz, ora reclamando, ora resignada, simplesmente porque era preciso.
Mas meu ponto aqui é: se você tem liberdade para ensinar, sugiro que não se prenda muito a um sistema ou método só porque alguém disse que é assim que tem que ser, ou porque você precisa seguir tudo de determinado método. Eu gosto do Material Dourado, mas jamais me consideraria uma “montessoriana” porque discordo de muita coisa que ela diz.
Eu tenho falado muito sobre quanto nós precisamos ensinar os alunos a estudar para que eles se tornem capazes de aprender por conta própria. Mas para isso é preciso que nós aprendamos a ensinar também. Um bom professor não é um cozinheiro que segue bem todas as receitas, ele é como um chef que conhece bem as propriedades de cada ingrediente e os resultados de cada processo de cocção, sabendo utilizar isso tudo para criar novas receitas conforme o resultado que ele pretende alcançar.
E eu sou por um mundo com mais professores-chefs.
😉

Motivando os alunos para o estudo (e esse tal de “É brincando que se aprende”)

Motivar o aluno para a aprendizagem, despertar a vontade de aprender, incentivar o interesse nos estudos…. Quem nunca ouviu ou usou esses termos, consumindo-se em preocupação na busca pelos métodos e estratégias que finalmente farão com que nossas crianças e adolescentes descubram a maravilha que é estudar e aprender?

Dar aulas é algo que faz parte da minha vida há 20 anos e apenas nos últimos dois anos é que “despertar o interesse dos alunos” e outras ideias similares deixaram de ser uma preocupação minha. E se você pensa que eu deixei de me preocupar porque descobri, finalmente, a estratégia perfeita para resolver o problema, lamento te decepcionar. A verdade é que eu entendi que, no que diz respeito aos estudos, essa é uma ideia que não apenas não faz sentido, como atrapalha o que entendemos por educação. Vou explicar.

Sempre gostei de começar as aulas com algo que chamasse a atenção dos alunos para o assunto. É a famosa captação: parte da rotina de quem faz questão de manter a audiência interessada no que vai dizer – e eu investia pesado nisso. Já me caracterizei de personagens divertidos, já fiz gincanas e competições, já usei imagens, vídeos, histórias, objetos, música, forca, cruzadinha e nem sei quantas atividades diferentes para ter certeza de que os alunos jamais esqueceriam aquela aula – afinal, como eu aprendi na faculdade e nos comerciais de televisão, “é brincando que se aprende”.

Pois bem. Acontece que com o passar do tempo comecei a perceber um fenômeno interessantíssimo: o momento de captação era sempre um sucesso; a hora de estudar, um desastre.

Os alunos riam e se divertiam com as atividades que eu preparava. Uma maravilha! O problema é que na hora que começava a parte deles no negócio – ler, reler, interpretar, escrever e pensar – ninguém queria saber de mais nada. Bom, “ninguém” é exagero; sempre temos alunos que fazem o que precisa ser feito. A maioria, no entanto, começava com as mesmas reclamações de sempre e qualquer tarefa era praticamente um parto!

o-defeito-do-que-e-interessante-por-si-mesmo-e-que-nao-e-penoso-se-interessar-por-aquilo-e-que-nao-se-aprende-a-se-interessar-por-aquilo-por-vontade-propria-eis-a-razao-por-que-eu-desprezo-ate-a-linNa mesma época comecei a trabalhar fora de sala de aula com alunos que tinham dificuldades nos estudos e foi quando fiz uma das grandes descobertas da minha vida pedagógica: NÃO é brincando que se aprende!

Antes que alguém queria me levar presa por apostasia e infração gravíssima às leis pedagógicas modernas, quero deixar claro que não estou dizendo que os alunos não podem aprender enquanto brincam, nem elogiando as aulas maçantes. Por favor, acompanhem o raciocínio.

A questão é que sempre que insistimos na ideia de que o aluno precisa aprender brincando, produzimos dois efeitos terríveis para a verdadeira educação:

Primeiro: passamos para o aluno a ideia de que estudar e aprender são atividades divertidas. E isso é um tremendo, tremendo engano!! Porque a verdade é que o aprendizado é consequência do estudo e estudar dá muito, muito trabalho!

Segundo: passamos para o professor a ideia de que ele é o maior responsável pela motivação do aluno para o estudo – o que também não é verdade. Um professor pode ser lindo, maravilhoso, encantador e deslumbrante e ainda assim ter alunos em sua turma que não possuem qualquer motivação para os estudos.

“Ah, mas quanto absurdo você está dizendo! Eu conheço alguém que começou a gostar de Matemática só porque o professor o incentivou. E também tem aquele que…”

Bom, eu também conheço um monte de gente nesse estilo. Eu mesma fui incentivada por excelentes professores que tive e já ouvi de diversos alunos o quanto minhas aulas os incentivaram a gostar de ler ou outras coisas assim. Mas, e aqueles por quem eu gastei metade dos meus neurônios e nunca consegui encontrar um jeito de motivar? E todos aqueles que estudaram comigo, tiveram os mesmíssimos professores que eu e ainda assim não queriam nada com a vida?

O que eu quero dizer – e o que me fez mudar meu estilo de ensino e até a desenvolver o Curso Ensinar a Estudar – é que existem questões morais que antecedem às questões didático-pedagógicas.

Uma virtude básica importantíssima para que alguém tenha um bom desempenho – seja na escola, seja na vida – é a fortaleza. Essa virtude, que se tornou uma palavra praticamente desconhecida no nosso mundo moldado pelo politicamente correto, cuja única função parece ser criar pessoas fracas, diz respeito a capacidade que um ser humano tem de enfrentar as dificuldades para propósitos nobres e bons. Agora veja: você não enfrenta nada enquanto assiste algo acontecer. “Enfrentar” é um verbo que implica movimento; uma ação com envolvimento intenso e que lembra luta, batalha, suor, cansaço e, muitas vezes, até lágrimas e sangue.Já falei um pouco sobre a questão da fortaleza no post sobre o Bullying.

Mas, afinal, que relação essa virtude pode ter com ensinar a estudar? Por que falar sobre caráter quando o assunto é desempenho acadêmico? Pelo que eu já disse: estudar é difícil. Mesmo! Pergunte a qualquer pessoa que estuda de verdade. Eu já ouvi muitas vezes pessoas me dizendo: “Pra você é fácil porque você gosta de estudar.” Não é não, gente! Ler textos difíceis cansa, pesquisar é complicado e escrever pode ser um exercício tão trabalhoso que às vezes dá vontade de chorar (sem exagero). Eu gosto, sim. Mas gosto porque o resultado desse trabalho – como de todos os bons trabalhos – me traz muita alegria. Pela graça de Deus meus pais me ensinaram a encontrar prazer em aprender e descobrir coisas. A questão é que até chegar lá onde a alegria mora existe um caminho a ser percorrido – e o resultado precisa valer a pena.

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Agora veja a situação terrível em que estão as nossas crianças: elas estão sendo ensinadas
por professores que na maior parte do tempo culpam a si mesmos (e são apontados como culpados pela sociedade inteira) por não estar conseguindo motivar os alunos a aprender. “Precisa pôr mais tecnologia na sala de aula! Precisa dar aulas melhores para conter a evasão escolar! Precisa isso, precisa aquilo!” Muitas vezes os próprios pais assumem para si alguma culpa pelo fato de que a criança não estuda (e, consequentemente, não aprende). E enquanto isso elas são ensinadas pela nossa sociedade que são vítimas de um sistema educacional ruim, uma escola ruim, uma vida ruim, e etc… Enquanto isso, o computador, a televisão e o videogame oferecem todo tipo de opções onde tudo é rápido, tudo é superficial, tudo é agitado e tão fácil que até ler um texto como esse, com pouco mais de mil e quinhentas palavras, já é considerado um exercício impossível para a maioria de nós. (“Isso não é um texto; é um livro!”)

Agora me digam: como é que alunos moldados por esse sistema vão descobrir que na verdade aprender é algo que depende do trabalho deles? Como vão entender que quando uma leitura está difícil eles precisam ser fortes e perseverar no trabalho até conseguir vencê-lo e finalmente compreender o texto? Como vão aprender que prestar atenção em uma aula requer disciplina e autocontrole – que são uma verdadeira batalha contra nossa vontade de distrair o pensamento e voltar a atenção para outras coisas mais interessantes? Como vão perceber que o estudo é um exercício e que não podemos desistir no primeiro erro – nem no segundo, nem no terceiro, nem no que for necessário para que se encontre a resposta certa?

Quando estava no Ensino Médio eu tinha um professor de Biologia que mais faltava do que ia dar aula. Era escola pública, então não tinha muito o que fazer a respeito. Entrava um substituto que mandava a gente copiar qualquer coisa para passar o tempo. Eu ficava brava com aquilo e um dia reclamei para a minha mãe que assim não tinha como aprender. Ela me disse o que dizia sempre: “Quem faz a escola é o aluno. Pega o seu livro de Biologia e vai estudar”. Meus pais nunca me deram a opção de me colocar como vítima do sistema; eles me faziam ver que estudar era um trabalho meu e que eles esperavam que eu o fizesse.

Meu tempo com os alunos (tanto aqueles que têm um excelente desempenho nos estudos como aqueles com dificuldades para aprender) me tem feito pensar muito sobre tudo isso. E quanto mais estudo e pesquiso, mais acredito que o problema da nossa educação não é prioritariamente financeiro, nem pedagógico, nem mesmo estrutural; o problema da educação é, antes de tudo, moral. Se queremos que nossos alunos alcancem bom desempenho acadêmico, precisamos compreender a necessidade da educação do caráter e ensiná-los que aprender é consequência de um trabalho chamado “estudo”. E que estudar dá, sim, muito trabalho.

Na Educação por Princípios nós usamos os princípios do autogoverno e do caráter cristão para ensinar às crianças que as dificuldades fazem parte da nossa vida e por meio delas nosso caráter é moldado por Deus, sendo necessário, para isso, aprender a governar a si mesmo de forma que suas decisões sejam tomadas com base em suas convicções, e não na sua vontade ou falta dela.

Antes, quando as crianças reclamavam que uma lição estava chata, eu me sentia culpada e pensava o que precisava fazer para motivá-los e deixar tudo mais divertido. Depois, minha resposta passou a ser: “Está chata porque é um exercício e dá trabalho. Seja forte e não desista até ter conseguido terminar. Imaginem que essa lição é uma pedra que apareceu no seu caminho. Se você se esforçar até conseguir ultrapassá-la, se tornará mais forte e vai lidar com as próximas pedras coknightm maior facilidade; se desistir e sentar à beira do caminho, não só não se tornará mais forte, como também não chegará a lugar nenhum. Vamos, eu sei que vocês conseguem vencer essa.” Parece bobeira, mas com o tempo eles começam a internalizar a ideia de que, assim como os heróis das boas histórias, que enfrentavam dragões e precisavam lutar com todas as forças, eles também têm suas pequenas batalhas e seus gigantes a derrotar. Essa é, aliás, mais uma razão para investir na formação literária das crianças e adolescentes. Coragem, perseverança, determinação – é isso que precisamos enfatizar! Porque a motivação precisa vir de dentro de um coração forte e pronto a vencer os desafios, custe o que custar.

Katarine Jordão

PS. 1 – A nova turma do Curso Ensinar a Estudar está com inscrições abertas

PS. 2 – Na foto de capa está o Caique. Um aluno a quem quero dedicar este texto – porque aí está uma criança que tem aprendido a ser forte!! ❤

A valorização da estética na Educação Cristã*

*Artigo elaborado para apresentação da palestra de mesmo título, apresentada no 21º Workshop da AECEP em 2012.

Por Katarine Jordão

A questão da estética se tornou um dos paradoxos do nosso tempo: o ardente anseio pelo sublime em um mundo que não valoriza o encanto, a poesia e a imaginação.

Qual importância da estética na vida e na Educação? Como a educação cristã tem lidado com esta questão? De que forma podemos valorizar e implantar práticas que resultem em encantamento e beleza?

Estas e outras questões serão abordadas a seguir, visando considerar qual a relação entre estes aspectos e a missão educacional que resulte na glória de Deus.

  1. O que podemos entender por “estética”?

Embora o conceito de “estética” seja frequentemente vinculado ao embelezamento do corpo, etimologicamente esta é uma palavra de origem grega /aesthésis/ e traz o sentido de percepção ou sensação.

No entanto, é importante ressaltar que, assim como outros temas, a questão da estética dificilmente poderia ser contida em uma única definição. Filósofos, críticos e teóricos têm tentado, no decorrer da História, compreender e conceituar a estética e seu lugar na vida humana, sob diversos pontos de vista.

Na Grécia antiga o conceito de estética estava ligado ao conceito de belo, que foi e ainda é objeto de estudo da filosofia. Platão definia o belo como o bem, a verdade, a perfeição; como algo que existe em si mesmo, apenas no mundo das ideias e não no mundo sensível, não permitindo ao juízo humano o julgamento do que seria belo ou não.

Aristóteles, diferentemente de Platão, acreditava que o prazer associava-se à imitação artística da natureza e, por ser a arte uma criação particularmente humana, o conceito de belo não poderia ser separado daquilo que é sensível ao homem. Aristóteles formulou uma série de critérios para se avaliar uma obra de arte. Proposição, simetria, composição, ordenação e equilíbrio precisavam estar presentes em justa medida para que uma arte fosse considerada bela.

Mais tarde, na Idade Média, a autoridade eclesiástica introduziu o conceito de que o belo seria a identificação direta com Deus. Tanto Santo Agostinho como São Tomás de Aquino identificam a beleza com o Bem considerando que a perfeita simetria, proposição e ordem residem no próprio Deus.

Com a chegada do Renascimento, a visão de arte é desvinculada do serviço a Deus ou a expressão das verdades criadas por Ele e o artista passa a ser um criador absoluto.

Entre os diversos caminhos tomados pelas linhas de pensamento que trataram do tema, surge, no Iluminismo, com o conceito de René Descartes quanto à superioridade da lógica e do pensamento sistemático em contraposição à intuição e emoção: a ideia de que o homem precisa ter o controle consciente e racional do conhecimento para que este se torne comprovável. A partir de então os aspectos subjetivos da vida são afastados para a esfera particular e excluídos de qualquer atividade considerada científica e útil.

Ao mesmo tempo em que torna a Estética um campo específico da Filosofia, a visão cartesiana menospreza as possibilidades e necessidades de encantar-se com o mundo criado por Deus.

Mas quais seriam as consequências desses pensamentos na realidade do mundo em que vivemos?

  1. O anseio pela beleza em um mundo desencantado

Não apenas os campos da Estética e das Artes foram afetados por esta forma de pensar a vida. Na cultura ocidental, todas as áreas da vida humana vivem hoje os resultados de um pensamento desenvolvido a partir do Renascimento Europeu onde o homem, em seu desejo de libertar-se do domínio de Deus e seus princípios, aventurou-se em um caminho onde ele próprio, e não mais Deus, seria o centro de todas as coisas.

Contudo, ao afastar-se de Deus e seus princípios para a vida, insistindo numa análise puramente lógica, racional e individualista, a frieza ganhou espaço e a sensibilidade perdeu seu valor.

Não obstante todos os avanços da ciência e da tecnologia, o crescimento da indústria do entretenimento e a facilidade de acesso ao conhecimento, o mundo está sem cor. Não há tempo, não há equilíbrio, não há paz. Numa educação voltada para a competição no mercado de trabalho, as crianças crescem aprendendo muito sobre como ser alguém na vida, mas pouco ou nada sobre como viver a vida de forma plena. A depressão e a síndrome do pânico são anunciadas pelos estudiosos como o mal do século em uma sociedade onde cada vez mais as pessoas se sentem sozinhas, mesmo caminhando em meio a uma multidão.

E embora vivendo as consequências de um pensamento cujas raízes se encontram firmadas há mais de 500 anos, o homem anseia pela beleza da vida. Os shoppings que investem milhares de reais em decoração e beleza já compreenderam isso. Faz parte dos cursos de publicidade e propaganda a tarefa de descobrir como tornar os lugares mais belos para que as pessoas desejem estar ali. E embora motivados pelo consumismo, eles revelam que as pessoas de fato anseiam pelo sublime que pode ser encontrado na arte, na beleza e nos princípios estabelecidos, desde o princípio, por Deus.

  1. Deus e a estética – a arte na Bíblia

 “Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite. Não há linguagem nem fala onde não se ouça a sua voz. A sua linha se estende por toda a terra, e as suas palavras até ao fim do mundo. Neles pôs uma tenda para o sol, o qual é como um noivo que sai do seu tálamo, e se alegra como um herói, a correr o seu caminho. A sua saída é desde uma extremidade dos céus, e o seu curso até à outra extremidade, e nada foge ao seu calor.” (Salmo 19:1-6)

Gênesis 1:31 nos conta como, após terminar a criação do mundo, Deus viu tudo o que tinha feito e era muito bom!

Não é preciso muito esforço para reconhecer a beleza em Deus e em suas obras. Talvez baste admirar um pôr do sol, contemplar uma noite estrelada ou demorar-se observando os detalhes na estrutura de uma folha e nas cores de uma flor e então se perguntar: por que Deus se importou em criar coisas tão belas? Por que razão não as fez simplesmente úteis? Por que motivo há cores tão vivas, tão belos sons e tão ricos detalhes?

Também não é preciso muito esforço para descobrir a resposta: Para a Sua glória! “Tudo foi criado por Ele e para Ele” (Cl.1:16). A beleza de cada obra criada existe para refletir a beleza que há no Criador. E “Desde Sião, perfeita em beleza, Deus resplandece.” (Salmo 50:2).

E não bastasse sua própria criação, a Bíblia também nos mostra o cuidado de Deus em transmitir aos homens a capacidade criadora para que também as obras humanas sejam um reflexo da Sua glória!

Quando ordenou como deveria ser construído o Tabernáculo, o lugar onde Ele habitaria, é impressionante perceber o cuidado com cada detalhe daquele que deveria ser elaborado, não apenas por homens capacitados, mas também por artesãos, como descreve Êxodo 35:30-35:

Depois disse Moisés aos filhos de Israel: Eis que o SENHOR tem chamado por nome a Bezalel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá. E o Espírito de Deus o encheu de sabedoria, entendimento, ciência e em todo o lavor, e para criar invenções, para trabalhar em ouro, e em prata, e em cobre, e em lapidar de pedras para engastar, e em entalhar madeira, e para trabalhar em toda a obra esmerada. Também lhe dispôs o coração para ensinar a outros; a ele e a Aoliabe, o filho de Aisamaque, da tribo de Dã. Encheu-os de sabedoria do coração, para fazer toda a obra de mestre, até a mais engenhosa, e a do gravador, em azul, e em púrpura, em carmesim, e em linho fino, e do tecelão; fazendo toda a obra, e criando invenções. (Êxodo 35:30-35)

Deus, o Artista por excelência, capacitou os homens e indicou, em detalhes, quais seriam os materiais, medidas e formatos em cada objeto: o incenso, elaborado como “um perfume segundo a arte do perfumista, temperado, puro e santo” (Êxodo 30:35). O peitoral que seria usado pelo sacerdote, feito “de obra de artífice, como a obra do éfode, de ouro, de azul, e de púrpura, e de carmesim, e de linho fino torcido.” (Êxodo 39:8). O candelabro com “três taças com formato de flor de amêndoa num dos braços, cada uma com botão e flor, e três taças com formato de flor de amêndoa no braço seguinte, cada uma com botão e flor.” (Êxodo 25:33). E a arca da aliança, com suas argolas e revestimento em ouro, “com dois querubins de ouro batido nas extremidades da tampa.” (Êxodo 25:18).

Que magnífico lugar deve ter sido! A habitação de Deus se destacando em cores, formas e beleza no meio do deserto, trazendo ao povo o alento da sua presença e a certeza da sua glória majestosa.

A partir desta perspectiva, qual deveria ser então o lugar e a importância da beleza em nossas vidas e em nossa forma de educar?

  1. A estética na educação cristã

Certamente sabemos que a beleza não pode ser um fim em si mesma. A ira de Deus se acendeu contra o seu povo quando a obra de arte se tornou alvo de adoração – como no caso do bezerro de ouro (Êxodo 32:7-8) e da serpente de bronze (II Reis 18:4). Deus nos adverte em diversos momentos quanto à valorização de uma beleza apenas exterior que não esteja vinculada ao caráter.

Ao tratar deste assunto, assim como de qualquer outro, precisamos ter em mente que nossa motivação sempre deve ser a glória de Deus e que, desvinculados dos princípios que Ele mesmo instituiu, qualquer tentativa de tornar melhores a vida e o mundo resulta em trabalho vão.

Apesar disso não podemos deixar de considerar a importância e necessidade das experiências estéticas para a vida, por diversas razões.

Sendo a primeira delas a glória de Deus que se revela por meio da beleza, conforme já discorrido, é necessário considerar também as consequências disso na vida dos nossos alunos.

Ao valorizar a contemplação e produção da beleza por meio da percepção estética das coisas, oferecemos às crianças e adolescentes um padrão que está além da realidade de vida que o mundo oferece.

Em seu Panorama Curricular, o Programa AMO – Apascenta as Minhas Ovelhas –, que tem como missão “construir esperança e visão na próxima geração para que influenciem a cultura para Cristo”, compreende a valorização da beleza como um importante componente na busca por nutrir a criança de forma integral.  Estabelece o Programa:

“As artes nutrem a alma do homem, os portais de seu espírito. Beleza lida com o eterno e espiritual. Crianças são famintas por verdade e beleza. Beleza possui valor moral para a verdade. A cultura nobre é transcendental. Permite que a criança voe acima da circunstância, oferecendo esperança através de ideais nobre e ideias criativas para a resolução de problemas.”

É importante ressaltar que, mesmo nos Parâmetros Curriculares Nacionais definidos para a Educação brasileira, esses princípios já se encontram estabelecidos.

Em sua introdução é defendido que os objetivos para a educação integral do ser “… se definem em termos de capacidades de ordem cognitiva, física, afetiva, de relação interpessoal e inserção social, ética e estética, tendo em vista uma formação ampla.” (PCN. P. 47).

No volume dedicado especificamente à Arte, encontramos uma ênfase ainda maior na necessidade quanto à sensibilização do indivíduo:

“O conhecimento da arte abre perspectivas para que o aluno tenha uma compreensão do mundo na qual a dimensão poética esteja presente: a arte ensina que é possível transformar continuamente a existência, que é preciso mudar referências a cada momento, ser flexível. Isso quer dizer que criar e conhecer são indissociáveis e a flexibilidade é condição fundamental para aprender.” (PCN Arte, p. 19)

“Apenas um ensino criador, que favoreça a integração entre a aprendizagem racional e estética dos alunos, poderá contribuir para o exercício conjunto complementar da razão e do sonho, no qual conhecer é também maravilhar-se, divertir-se, brincar com o desconhecido, arriscar hipóteses ousadas, trabalhar duro, esforçar-se e alegrar-se com descoberta” (PCN Artes p. 27).

E se essas razões não nos bastassem, precisamos lembrar ainda que estamos formando a próxima geração e que, vivendo como cristãos num mundo desencantado e sem esperança, cabe a nós não apenas levar a mensagem da salvação que Cristo oferece como também restaurar no mundo a glória de Deus e mostrar a plenitude de vida que há Nele.

Como declara Schaeffer, em seu livro A Arte e a Bíblia:

“Cristo é o Senhor de nossa vida como um todo e a vida cristã deve produzir não apenas verdade – uma verdade arrebatadora – mas também beleza. A vida cristã deve ser uma obra de arte. A vida do cristão deve ser algo verdadeiro e belo em meio a um mundo perdido e desesperado”. (Schaeffer, 2010, p. 40)

Para que os alunos que se encontram hoje sob nossa responsabilidade se tornem de fato líderes que influenciarão sua geração e reencantarão o mundo, precisamos trabalhar desde hoje para despertar neles a sensibilidade que o mundo perdeu, de forma que sejam capazes não apenas de apreciar e restaurar no mundo a beleza do próprio Deus, para a sua glória.

Mas como aplicar, de forma prática, esse conceito da valorização da experiência estética na Educação Cristã?

  1. Duas propostas práticas:

 5.1. Produções artísticas e valorização dos clássicos

No caso da Educação por Princípios, a questão estética é valorizada desde a Estruturação Metodológica, que estabelece “a abordagem das Belas Artes como expressão individual de criatividade e elevação do padrão estético, aplicado interdisciplinarmente”, por meio dos Programas de Belas Artes (teatro, dança, música, artes visuais, poesia) como ferramentas pedagógicas.[2]

Além dos cursos oferecidos pelas escolas como diferenciais curriculares – ballet, música, artes, entre outros –, a proposta é que esta abordagem aconteça de forma contínua, ou seja, em atividades desenvolvidas de forma entrelaçada aos demais conteúdos e habilidades desenvolvidos.

Desta forma, a apreciação e produção artística podem ser incluídas em diversas disciplinas e atividades, especialmente na ferramenta que conhecemos como “Celebração da Aprendizagem”, como forma de apresentar publicamente a aprendizagem adquirida.

Os alunos podem produzir redações a partir da contemplação de uma obra de arte como pintura, escultura, música instrumental, leitura de um trecho de um clássico, entre outros. O estudo de um evento histórico também pode ser introduzido com a apreciação de uma pintura que o represente.

Promover um concurso ou sarau com produção ou declamação de poesias, redações, fotografias, desenhos, histórias… As possibilidades são muitas e podem enriquecer muito as aulas e torná-las inesquecíveis na memória dos alunos.

Contudo, neste aspecto, é importante lembrar que a arte precisa ser valorizada enquanto arte, e não apenas como uma forma de se transmitir uma ideia. Utilizar a arte como mero instrumento empobreceria o seu sentido e não ensinaria os alunos a apreciar a beleza que existe nela.

5.2. Ecologia escolar – a beleza do ambiente

Apesar de ser frequentemente relacionada ao meio ambiente, a palavra “ecologia” tem sua origem na palavra grega oikos (casa) e logos (estudo), refletindo a reflexão sobre o meio e suas interações.

A ecologia escolar refere-se, então, ao estudo das relações que acontecem no ambiente escolar, sendo uma delas a relação com o próprio ambiente em si.

Apesar de vivermos em uma cultura que não valoriza a beleza e o cuidado com os ambientes coletivos, a forma como nos relacionamos com a nossa “casa” escolar reflete muito do valor atribuímos aos outros.

Muitas vezes as escolas se preocupam com a aparência de suas dependências considerando que novos pais ou autoridades podem chegar a qualquer momento e precisam ter uma boa impressão da escola. Contudo, como já tratado, nossa primeira motivação para promover a beleza e organização no ambiente escolar deveria ser a glória de Deus e o despertar dos alunos.

Poucas vezes consideramos a influência do ambiente no comportamento social, mas estudos interessantes mostram a diferença de atitudes em ambientes agradáveis das atitudes observadas em ambientes sujos e mal cuidados.

Uma lei aprovada em 1986 na Prefeitura do Rio de Janeiro, estabelece a criação da Divisão de Ecologia Escolar na Secretaria da Educação, que teria como fins:

I – dotar as escolas de condições ambientais propícias à aprendizagem e ao ensino;

II – exercer vigilância para a salvaguarda das condições de higiene, estéticas e de ambiência confortável dos pontos de vista visual, auditivo e olfativo;

III – colaborar com os professores na educação ecológica, tanto dos alunos como da comunidade.[3]

Independente dessas questões, ou anteriormente a elas, como educadores que valorizam o princípio da mordomia cristã, precisamos olhar para esta questão com mais atenção e nos questionar como estamos cuidando do ambiente onde trabalhamos e quais exemplos estamos transmitindo aos nossos alunos.

Não se trata apenas da limpeza – embora muitas vezes os copos e talheres sujos sobre a mesa na sala dos professores cause dúvidas quanto à obviedade desse aspecto – mas de tornar belo e agradável o lugar onde passamos tantas horas do dia com nossos alunos e companheiros de trabalho.

Se de fato queremos que nossos alunos sejam sensíveis à beleza, precisamos considerar se a forma como organizamos e ornamentamos nosso ambiente está condizente com aquilo que esperamos desenvolver neles.

Que o Senhor use as nossas vidas para educar nossos alunos de forma que suas vidas – e as nossas – sejam luz, trazendo a um mundo desencantado e frio, a beleza, alegria e esperança que existem na plenitude da vida que há Nele, para a Sua glória.


[2] A Estruturação da Educação por Princípios pode ser encontrada no site da AECEP: http://www.aecep.org.br/educacao-por-principios

[3] Lei nº 817/1986 – Rio de Janeiro

BIBLIOGRAFIA

BÍBLIA SAGRADA

BRASIL. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. SECRETARIA DE EDUCAÇÃO BÁSICA. Introdução aos Parâmetros Curriculares Nacionais. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica: Brasília (DF), 2006 v.1; il.

BRASIL. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. SECRETARIA DE EDUCAÇÃO BÁSICA. Arte. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica: Brasília (DF), 2006 v.6; il.

SALVI, Rosana Figueiro. A questão pós-moderna e a Geografia, Revista do Departamento de Geociências, vol. 9, nº2, www.uel.br/revistas/geografia/v9n2.pdf. Acessado em de março de 2012.

SCHAEFFER , Francis. A arte e a bíblia.Ultimato: Viçosa, 2010.

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