A árvore das virtudes

Assim como aconteceu com a Escola Manacá, muitas ideias legais têm surgido nesta primeira edição online do Programa Valores e Virtudes e eu fico cada vez mais encantada.

Embora sejam muitas ideias, essa eu pedi autorização para compartilhar fora do grupo porque assim que vi comecei a pensar várias questões importantes.

Estamos trabalhando com 16 virtudes e logo no início eu fiz um vídeo comentando um pouco sobre cada uma e explicando que uma virtude não é algo com o qual você nasce, mas algo que se desenvolve, se cultiva. Para Aristóteles, enquanto a virtude intelectual cresce a partir do ensino, a virtude moral é adquirida como resultado do hábito.

Em seu livro “Ética a Nicômaco” ele explica a questão do hábito com uma citação de Eveno:

O hábito, meu caro, não é senão uma longa prática

Que acaba por se fazer natureza.

Claro, existem os bons e os maus hábitos. Por isso Aristóteles se refere às virtudes como aquelas adquiridas por meio dos hábitos que são “dignos de louvor”.

Pois bem… Logo que começamos o Estudo das Virtudes a Daniele Pereira associou uma das histórias com o plantio e trabalhou com seu filho sobre o cultivo das virtudes mostrando as plantinhas de sua pequena horta. Achei isso muito interessante.

E na semana passada recebi essa foto do trabalho feito pela Kátia Guará para ensinar aos seus filhos a questão de que as virtudes são como os frutos que nós colhemos após o cultivo.

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Fiquei encantada, claro, com a dedicação, mas mas ainda com a ideia da árvore, que era algo que eu não tinha pensado. E eu amo árvores! (Não foi por acaso a escolha do logo do blog, rs)

O que me veio à mente no mesmo momento foi que uma árvore pode dar frutos bons, frutos ruins, ou fruto nenhum. E isso depende, em grande parte, de diversos fatores como as condições do solo e do clima, e os devidos cuidados por parte dos cultivadores.

Então pensei naquele texto em que Davi compara a pessoa justa a uma árvore, dizendo:

Pois será como a árvore plantada junto ao ribeiro de águas

a qual dá o seu fruto na estação própria

e tudo quanto fizer, prosperará.

Sempre que recito essas palavras eu imagino uma árvore muito frondosa, cheia de folhas viçosas e frutos doces, plantada próximo a um rio de águas cristalinas.

Meu pensamento, então, ao pensar na árvore das virtudes, foi que é preciso que se preste atenção ao lugar onde estamos plantados – o que nossas raízes estão absorvendo, o que nos tem servido de alimento para a produção da seiva que resultará nos bons frutos.

Pensei na diferença que faz estar cercado por pessoas que também buscam uma vida sábia e plena – em contraposição a viver tentando desenvolver as virtudes quando todos à sua volta acham que isso é perda de tempo e o mais importante é se divertir e chafurdar-se na lama dos vícios.

Também pensei nas coisas com que alimentamos nossa mente todos os dias. Muitas pessoas pensam que não faz diferença o tipo de música que você ouve, os programas que assiste, os livros que lê. “É só para distração. Eu não misturo as coisas. Continuo com os meus princípios.” Eu não sei, mas acho muito difícil isso. Pensar que alguém pode passar horas e horas alimentando sua mente com programas que só alimentam a fofoca sobre a vida alheia, histórias que exaltam a rebeldia, o adultério e o sexo livre porque “o importante é ser feliz”, músicas que falam de vingança, despeito e desprezo pela dignidade do outro – lixo moral, em suma – e achar que nada disso vai afetar sua mente, seu coração e seus sentimentos? Certeza que essa pessoa terá tanta inclinação a se esforçar pelo cultivo das virtudes quanto aquela que lê, ouve e assiste histórias belas e que incentivam o abandono dos vícios e o amor pelas coisas certas?

E, finalmente, pensei naquelas águas buscadas pelas raízes da árvore. Porque ela pode estar em um lugar com clima ideal e solo fértil, mas como sobreviverá se não houver água?

Talvez alguns discordem, mas de minha parte estou certa de é possível encontrar diversos tipos de ribeiros, mas que existe um rio cujas águas podem não apenas saciar a sede, mas nutrir, fazer crescer, florescer e dar frutos – uma plenitude de vida que procede do próprio Deus.

Não duvido que seja possível buscar uma vida virtuosa mesmo sem crer Nele. Mas eu jamais abriria mão de estar plantada junto a essa corrente de águas a quem posso buscar!

 

Educação do Caráter

Sabemos que a educar não se trata simplesmente de um trabalho com a finalidade de formar mentes brilhantes. Cada vez mais as famílias, professores e pensadores envolvidos com a educação têm se preocupado em buscar uma abordagem que não se limite a trabalhar para que o aluno seja aprovado em vestibulares e concursos públicos e tenha uma carreira de sucesso, mas em prepará-lo para a vida.

Enquanto assistimos, impressionados, à decadência moral da sociedade em que vivemos e presenciamos o fim trágico protagonizado por homens e mulheres que não foram capazes de lidar com os problemas, tomar decisões prudentes ou simplesmente assumir suas responsabilidades e tratar aos demais com a dignidade que lhes é devida, percebemos que os diplomas pendurados na parede ou a quantia que uma pessoa possui em sua conta bancária não farão qualquer diferença quando ela estiver frente a uma situação que exija virtudes como a coragem, integridade, compaixão ou autocontrole.

A “Educação do Caráter” é um termo que sintetiza o trabalho que tem sido feito para oferecer recursos àqueles que desejam investir de forma intencional na formação do caráter das crianças e adolescentes. A “Educação do Caráter” baseia-se no princípio antigo de que o fim último da educação deve ser a aquisição das virtudes necessárias para o pleno desenvolvimento humano, e não apenas o desenvolvimento cognitivo. A ideia de que não basta formar pessoas inteligentes; é preciso educar para que sejam sábias.

O Programa Valores e Virtudes foi estruturado tendo essas ideias como base. Por isso, além de trabalhar a parte mais técnica da formação de leitores, o programa também inclui o estudo das virtudes nas histórias e livros clássicos. Gosto muito de tudo que diz respeito à formação leitora das crianças e adolescentes, mas confesso que perceber quanto eles compreendem e refletem sobre cada virtude é uma das minhas partes favoritas do programa.

Para saber mais sobre nossa próxima edição do Valores e Virtudes clique aqui.

Caso tenha interesse no tema sobre Educação do Caráter, creio que gostará de saber que o primeiro módulo do curso “Ensinar a Estudar” vai tratar só sobre essas questões.

As inscrições para a última turma do curso de 2019 estão abertas até dia 26 de abril.

Valores e Virtudes: Como tudo começou

Eu estou realmente entusiasmada e feliz pelo privilégio de desenvolver um Programa de Formação de Leitores como esse e achei que a melhor forma de explicar melhor como ele funciona, seria contando como ele chegou até aqui. Só Deus cria a partir do nada, nós não. Por isso quero mostrar quantas pessoas e ideias foram somadas para que o “Valores e Virtudes” nascesse.

Tudo começou no final de 2016, quando o Márcio Carvalho, meu amigo e diretor da Escola Municipal Manacá, em Itapecerica da Serra, me desafiou a elaborar um plano de leitura dos clássicos da literatura para os alunos do primeiro ao quinto ano da escola. A intenção do projeto era incentivar a formação do hábito da leitura, proporcionando às crianças o acesso a textos de qualidade, com escrita devidamente elaborada e observando as normas cultas da linguagem – em oposição intencional à tendência moderna de subestimar a inteligência das crianças oferecendo textos exageradamente simplificados e adaptados. Por isso a escolha pelas obras clássicas, que de possibilitam a própria formação do leitor, trabalhando tanto na educação do caráter quanto na habilidade de desenvolver-se intelectualmente enquanto lê, como ensinado por Mortimer Adler, referência muito forte em todo o trabalho desenvolvido aqui.

Comecei então a pesquisar obras que poderíamos usar, e pensar em estratégias que fossem viáveis – porque afinal os professores já têm mil e uma atribuições diferentes e eu não adianta ter ideias bonitas que no final sejam impraticáveis. Pois bem. Em janeiro desse ano, quando realmente resolvemos levar a ideia a sério, percebi que essa abordagem com obras clássicas não é tão simples porque exige um trabalho específico por parte dos pequenos leitores. Basicamente, a capacidade leitora da maior parte das crianças de hoje não lhes permite compreender essas obras. Temos então dois caminhos: 1) oferecer a versão original e deixar que as crianças arrumem um jeito de entender, 2) trabalhar para que elas desenvolvam o nível adequado dessa capacidade leitora, ou 3) adaptar e simplificar as obras, trazendo-as para o nível em que elas estão. Como é fácil perceber, a maior parte das escolas e professores escolhe a terceira opção (tanto que, de algumas obras, foi difícil encontrar nas livrarias o texto integral, porque a grande procura é pelos textos adaptados). Bom, como nunca me conformei com isso, mas também não deixaria as crianças sem auxílio, resolvi tentar o segundo caminho: oferecer um texto com certo nível de complexidade vocabular ou estrutural, mas ao mesmo tempo trabalhar para que os alunos alcancem o domínio das técnicas necessárias para que a compreensão de fato aconteça.

Alguns anos atrás o próprio Márcio, diretor da escola, havia me falado sobre os materiais do Instituto Alfa e Beto. Até então eu desconhecia completamente as teorias e técnicas para o desenvolvimento da fluência de leitura – assim como a maior parte dos pedagogos e professores do Brasil e de outros tantos países, o que é uma verdadeira tristeza. Como desde então vinha estudando sobre isso e aplicando as estratégias com meus alunos, tanto na sala de aula como no trabalho de tutoria, achei que seria interessante incluir no programa essa outra área: o desenvolvimento da capacidade leitora.

Neste meio tempo, o amigo e também pedagogo Igor Miguel me marcou em um post sobre uma palestra do Dr. Mark Pike sobre a influência de C.S. Lewis na educação moral, porque tanto Lewis quanto a formação moral são temas que nos interessam muito na área da educação. E foi pesquisando sobre essa palestra que fiquei conhecendo o projeto Nárnia’s Virtues (Virtudes de Nárnia), da Universidade de Leeds, na Inglaterra, cuja proposta é ensinar as virtudes por meio das Crônicas de Nárnia, num trabalho conjunto com outras instituições que têm investido em pesquisas acadêmicas sobre a Educação do Caráter, que busca oferecer o conhecimento e prática das virtudes.

Educação do Caráter é um tema que me interessa desde meus tempos de faculdade – talvez até antes, porque sempre soube que educar não se trata simplesmente de formar mentes brilhantes. Cada vez mais as famílias, professores e pensadores ligados à área da educação têm se preocupado em buscar uma abordagem que não se limite a trabalhar para que o aluno seja aprovado em vestibulares e concursos públicos e tenha uma carreira de sucesso, mas em prepará-lo para a vida. Enquanto assistimos, impressionados, à decadência moral da sociedade em que vivemos e presenciamos o fim trágico protagonizado por homens e mulheres que não foram capazes de lidar com os problemas, tomar decisões prudentes ou simplesmente assumir suas responsabilidades, percebemos que os diplomas pendurados na parede, notas no vestibular ou a quantia que uma pessoa tem em sua conta bancária não farão qualquer diferença quando ela estiver frente a uma situação que exija virtudes como a coragem, integridade, compaixão ou disciplina.

Nesse ponto me lembrei de um dos projetos que o Paulo Cruz – também meu amigo, e também professor – havia desenvolvido com seus alunos, ensinando as virtudes cardeais por meio de histórias. O foco desse trabalho era a formação da imaginação moral, um tema sobre o qual o Paulo tem estudado e ensinado, com base não apenas no próprio C. S. Lewis, mas também em Tolkien, Chesterton, George MacDonald e Russel Kirk. Trata-se da busca por nutrir a memória com imagens que, extraídas das histórias e experiências vividas, formarão o arcabouço moral que norteará as atitudes da pessoa por toda a vida. Escolhi então quinze virtudes que seriam ensinadas por meio de contos tradicionais, antes que os alunos começassem o trabalho com os livros. E foi assim que o terceiro eixo foi incluído ao programa por meio das aulas de Literatura com o Estudo das Virtudes.

Além das três áreas, decidi deixar claro os valores que norteariam e permeariam todas as atividades do programa. Destes, os mais difíceis seriam dois: a beleza e a erudição. Difíceis porque vivemos tempos em que a beleza é considerada relativa e a busca pela erudição é considerada uma afronta. Embora eu deva ao trabalho do L’Abri e a Roger Scruton minha compreensão de que a beleza realmente importa, creio que só tomei coragem mesmo de defender valores como esses num projeto educacional porque vi isso ser realmente aplicado no Programa AMO de Literatura, desenvolvido por Elizabeth Youmans, que usamos com os alunos do CRE nas aulas de Literatura – e que eu amava tanto quanto as crianças. Foi a Ana Beatriz Rinaldi, a quem tomo a liberdade de chamar de mentora, quem primeiro eu ouvi falar sobre a importância da leitura em voz alta, dos livros clássicos, da erudição e da beleza na Educação. Foi ela também quem me apresentou o Programa AMO e que tem me incentivado para que projetos como esse se tornem realidade em meio ao caos estabelecido pela pedagogia moderna.

Não tenho como explicar como foi o momento em que todas essas influências e ideias se somaram e fizeram sentido na minha mente, mas garanto que foi emocionante. Assim, passei então o mês de fevereiro inteiro escrevendo o Guia do Professor, com a apresentação do programa, fundamentação e explicação das estratégias, e depois de alguns encontros de formação com os professores, no início de março o projeto começou “pra valer”.

O que tem acontecido depois e os detalhes de cada uma dessas áreas eu conto depois, mas estes foram os caminhos que conduziram o Programa “Valores e Virtudes” a seu formato atual. O programa fundamenta-se na convicção de que esta deve ser uma das prioridades da educação escolar: formar leitores. Não somente ensinar a ler, no sentido de decodificar letras, mas ensinar a arte de ler – uma arte que, assim como as outras, requer tanto o domínio da técnica quanto as habilidades de imaginar, encantar-se e pensar. O objetivo final do programa é criar na escola um ambiente fértil que contribua para formar alunos capazes tanto de conhecer o mundo e suas ciências por meio da leitura, como de atuar nele de forma íntegra e plena. Conhecimento que se traduz em vida.

Motivando os alunos para o estudo (e esse tal de “É brincando que se aprende”)

Motivar o aluno para a aprendizagem, despertar a vontade de aprender, incentivar o interesse nos estudos…. Quem nunca ouviu ou usou esses termos, consumindo-se em preocupação na busca pelos métodos e estratégias que finalmente farão com que nossas crianças e adolescentes descubram a maravilha que é estudar e aprender?

Dar aulas é algo que faz parte da minha vida há 20 anos e apenas nos últimos dois anos é que “despertar o interesse dos alunos” e outras ideias similares deixaram de ser uma preocupação minha. E se você pensa que eu deixei de me preocupar porque descobri, finalmente, a estratégia perfeita para resolver o problema, lamento te decepcionar. A verdade é que eu entendi que, no que diz respeito aos estudos, essa é uma ideia que não apenas não faz sentido, como atrapalha o que entendemos por educação. Vou explicar.

Sempre gostei de começar as aulas com algo que chamasse a atenção dos alunos para o assunto. É a famosa captação: parte da rotina de quem faz questão de manter a audiência interessada no que vai dizer – e eu investia pesado nisso. Já me caracterizei de personagens divertidos, já fiz gincanas e competições, já usei imagens, vídeos, histórias, objetos, música, forca, cruzadinha e nem sei quantas atividades diferentes para ter certeza de que os alunos jamais esqueceriam aquela aula – afinal, como eu aprendi na faculdade e nos comerciais de televisão, “é brincando que se aprende”.

Pois bem. Acontece que com o passar do tempo comecei a perceber um fenômeno interessantíssimo: o momento de captação era sempre um sucesso; a hora de estudar, um desastre.

Os alunos riam e se divertiam com as atividades que eu preparava. Uma maravilha! O problema é que na hora que começava a parte deles no negócio – ler, reler, interpretar, escrever e pensar – ninguém queria saber de mais nada. Bom, “ninguém” é exagero; sempre temos alunos que fazem o que precisa ser feito. A maioria, no entanto, começava com as mesmas reclamações de sempre e qualquer tarefa era praticamente um parto!

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Antes que alguém queria me levar presa por apostasia e infração gravíssima às leis pedagógicas modernas, quero deixar claro que não estou dizendo que os alunos não podem aprender enquanto brincam, nem elogiando as aulas maçantes. Por favor, acompanhem o raciocínio.

A questão é que sempre que insistimos na ideia de que o aluno precisa aprender brincando, produzimos dois efeitos terríveis para a verdadeira educação:

Primeiro: passamos para o aluno a ideia de que estudar e aprender são atividades divertidas. E isso é um tremendo, tremendo engano!! Porque a verdade é que o aprendizado é consequência do estudo e estudar dá muito, muito trabalho!

Segundo: passamos para o professor a ideia de que ele é o maior responsável pela motivação do aluno para o estudo – o que também não é verdade. Um professor pode ser lindo, maravilhoso, encantador e deslumbrante e ainda assim ter alunos em sua turma que não possuem qualquer motivação para os estudos.

“Ah, mas quanto absurdo você está dizendo! Eu conheço alguém que começou a gostar de Matemática só porque o professor o incentivou. E também tem aquele que…”

Bom, eu também conheço um monte de gente nesse estilo. Eu mesma fui incentivada por excelentes professores que tive e já ouvi de diversos alunos o quanto minhas aulas os incentivaram a gostar de ler ou outras coisas assim. Mas, e aqueles por quem eu gastei metade dos meus neurônios e nunca consegui encontrar um jeito de motivar? E todos aqueles que estudaram comigo, tiveram os mesmíssimos professores que eu e ainda assim não queriam nada com a vida?

O que eu quero dizer – e o que me fez mudar meu estilo de ensino e até a desenvolver o Curso Ensinar a Estudar – é que existem questões morais que antecedem às questões didático-pedagógicas.

Uma virtude básica importantíssima para que alguém tenha um bom desempenho – seja na escola, seja na vida – é a fortaleza. Essa virtude, que se tornou uma palavra praticamente desconhecida no nosso mundo moldado pelo politicamente correto, cuja única função parece ser criar pessoas fracas, diz respeito a capacidade que um ser humano tem de enfrentar as dificuldades para propósitos nobres e bons. Agora veja: você não enfrenta nada enquanto assiste algo acontecer. “Enfrentar” é um verbo que implica movimento; uma ação com envolvimento intenso e que lembra luta, batalha, suor, cansaço e, muitas vezes, até lágrimas e sangue.Já falei um pouco sobre a questão da fortaleza no post sobre o Bullying.

Mas, afinal, que relação essa virtude pode ter com ensinar a estudar? Por que falar sobre caráter quando o assunto é desempenho acadêmico? Pelo que eu já disse: estudar é difícil. Mesmo! Pergunte a qualquer pessoa que estuda de verdade. Eu já ouvi muitas vezes pessoas me dizendo: “Pra você é fácil porque você gosta de estudar.” Não é não, gente! Ler textos difíceis cansa, pesquisar é complicado e escrever pode ser um exercício tão trabalhoso que às vezes dá vontade de chorar (sem exagero). Eu gosto, sim. Mas gosto porque o resultado desse trabalho – como de todos os bons trabalhos – me traz muita alegria. Pela graça de Deus meus pais me ensinaram a encontrar prazer em aprender e descobrir coisas. A questão é que até chegar lá onde a alegria mora existe um caminho a ser percorrido – e o resultado precisa valer a pena.

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Agora veja a situação terrível em que estão as nossas crianças: elas estão sendo ensinadas
por professores que na maior parte do tempo culpam a si mesmos (e são apontados como culpados pela sociedade inteira) por não estar conseguindo motivar os alunos a aprender. “Precisa pôr mais tecnologia na sala de aula! Precisa dar aulas melhores para conter a evasão escolar! Precisa isso, precisa aquilo!” Muitas vezes os próprios pais assumem para si alguma culpa pelo fato de que a criança não estuda (e, consequentemente, não aprende). E enquanto isso elas são ensinadas pela nossa sociedade que são vítimas de um sistema educacional ruim, uma escola ruim, uma vida ruim, e etc… Enquanto isso, o computador, a televisão e o videogame oferecem todo tipo de opções onde tudo é rápido, tudo é superficial, tudo é agitado e tão fácil que até ler um texto como esse, com pouco mais de mil e quinhentas palavras, já é considerado um exercício impossível para a maioria de nós. (“Isso não é um texto; é um livro!”)

Agora me digam: como é que alunos moldados por esse sistema vão descobrir que na verdade aprender é algo que depende do trabalho deles? Como vão entender que quando uma leitura está difícil eles precisam ser fortes e perseverar no trabalho até conseguir vencê-lo e finalmente compreender o texto? Como vão aprender que prestar atenção em uma aula requer disciplina e autocontrole – que são uma verdadeira batalha contra nossa vontade de distrair o pensamento e voltar a atenção para outras coisas mais interessantes? Como vão perceber que o estudo é um exercício e que não podemos desistir no primeiro erro – nem no segundo, nem no terceiro, nem no que for necessário para que se encontre a resposta certa?

Quando estava no Ensino Médio eu tinha um professor de Biologia que mais faltava do que ia dar aula. Era escola pública, então não tinha muito o que fazer a respeito. Entrava um substituto que mandava a gente copiar qualquer coisa para passar o tempo. Eu ficava brava com aquilo e um dia reclamei para a minha mãe que assim não tinha como aprender. Ela me disse o que dizia sempre: “Quem faz a escola é o aluno. Pega o seu livro de Biologia e vai estudar”. Meus pais nunca me deram a opção de me colocar como vítima do sistema; eles me faziam ver que estudar era um trabalho meu e que eles esperavam que eu o fizesse.

Meu tempo com os alunos (tanto aqueles que têm um excelente desempenho nos estudos como aqueles com dificuldades para aprender) me tem feito pensar muito sobre tudo isso. E quanto mais estudo e pesquiso, mais acredito que o problema da nossa educação não é prioritariamente financeiro, nem pedagógico, nem mesmo estrutural; o problema da educação é, antes de tudo, moral. Se queremos que nossos alunos alcancem bom desempenho acadêmico, precisamos compreender a necessidade da educação do caráter e ensiná-los que aprender é consequência de um trabalho chamado “estudo”. E que estudar dá, sim, muito trabalho.

Na Educação por Princípios nós usamos os princípios do autogoverno e do caráter cristão para ensinar às crianças que as dificuldades fazem parte da nossa vida e por meio delas nosso caráter é moldado por Deus, sendo necessário, para isso, aprender a governar a si mesmo de forma que suas decisões sejam tomadas com base em suas convicções, e não na sua vontade ou falta dela.

Antes, quando as crianças reclamavam que uma lição estava chata, eu me sentia culpada e pensava o que precisava fazer para motivá-los e deixar tudo mais divertido. Depois, minha resposta passou a ser: “Está chata porque é um exercício e dá trabalho. Seja forte e não desista até ter conseguido terminar. Imaginem que essa lição é uma pedra que apareceu no seu caminho. Se você se esforçar até conseguir ultrapassá-la, se tornará mais forte e vai lidar com as próximas pedras coknightm maior facilidade; se desistir e sentar à beira do caminho, não só não se tornará mais forte, como também não chegará a lugar nenhum. Vamos, eu sei que vocês conseguem vencer essa.” Parece bobeira, mas com o tempo eles começam a internalizar a ideia de que, assim como os heróis das boas histórias, que enfrentavam dragões e precisavam lutar com todas as forças, eles também têm suas pequenas batalhas e seus gigantes a derrotar. Essa é, aliás, mais uma razão para investir na formação literária das crianças e adolescentes. Coragem, perseverança, determinação – é isso que precisamos enfatizar! Porque a motivação precisa vir de dentro de um coração forte e pronto a vencer os desafios, custe o que custar.

Katarine Jordão

PS. 1 – A nova turma do Curso Ensinar a Estudar está com inscrições abertas

PS. 2 – Na foto de capa está o Caique. Um aluno a quem quero dedicar este texto – porque aí está uma criança que tem aprendido a ser forte!! ❤

Cinco ervilhas numa vagem

Sabe aquelas histórias que chegam como se fossem um presente? Essa eu encontrei enquanto pesquisava as histórias para o Programa Valores e Virtudes. Tão linda! Por isso eu gosto tanto dos contos… Por isso eu gosto tanto de Andersen! Nem vou falar mais. Deixemos que a história fale por si mesma:

Eram cifivepeasnco ervilhas numa vagem. Estavam verdes e verde estava a vagem, e assim criam que todo o mundo era verde e estava absolutamente certo! A vagem cresceu e as ervilhas cresceram. Acomodaram-se conforme os cômodos da casa. Estavam em fila, disciplinadamente sentadas… O sol brilhava lá fora e aquecia a vagem; a chuva tornava-a clara. Era confortável e bom, iluminado de dia e escuro de noite, tal como devia ser, e as ervilhas tornaram-se maiores e sempre mais pensativas, assim como estavam, sentadas, pois algo tinham de fazer.

– Ficarei sempre sentada aqui? – disse cada uma delas. – Ao menos que não endureça de estar tanto tempo sentada. Passa-se comigo tal como se passa com qualquer coisa lá fora? Pressinto que sim.

Decorreram semanas. As ervilhas ficaram amarelas e a vagem ficou amarela.

– Todo mundo ficou amarelo! – disseram elas, e bem podiam dizê-lo.

Sentiram, então, um puxão na vagem. Foi arrancada, foi para mãos de homem e para o fundo de uma algibeira de jaqueta com outras vagens cheias.

– Vai se abrir em breve! – disseram elas; e ficaram à espera.

– Gostaria agora de saber quem de nós fará mais! – disse a ervilha menor. – Sim, vai ser agora.

– Aconteça o que tem de acontecer. – disse a maior.

“Craque!”, rebentou a vagem, e todas as cinco ervilhas rolaram para fora, para a clara luz do sol. Estavam na mão de uma criança. Um rapazinho as segurava e dizia que eram ervilhas próprias para sua espingardinha de brincar. E logo uma ervilha foi para dentro da espingarda e foi disparada.

– Agora vou voar pelo mundo afora! Agarra-me, se puderes! – e assim desapareceu.

– Eu – disse a segunda – voo diretamente para o sol, que é uma verdadeira vagem e muito conveniente para mim. E lá se foi.

– Dormirei onde for – disse cada uma das outras duas. – Mas andaremos bem para a frente! – e rolaram para o chão antes de entrarem na espingarda, mas lá para dentro foram. – Ainda conseguiremos mais!

– Aconteça o que tem de acontecer! – disse a última, e foi disparada para o ar. E voou para cima, para a velha tábua por baixo da janela do sótão, precisamente para dentro de uma fenda, onde havia musgo e terra fina. Para lá voou e o musgo se fechou sobre ela. Aí ficou esquecida, mas não esquecida por Deus.

– Aconteça o que tem de acontecer! – disse.

Dentro do pequeno sótão morava uma pobre mulher, que durante o dia saía para limpar fogões; sim, serrar lenha e fazer trabalhos pesados, porque tinha força e era diligente, mas bastante pobre continuava sendo. E em casa, no pequeno quarto, estava deitada a filha única, raquítica. Era tão magra e débil! Todo um ano estivera de cama e parecia pairar entre a vida e a morte.

– Vai para junto da irmãzinha – disse a mulher. – Tive duas filhas. Era bastante difícil para mim cuidar das duas, mas Deus partilhou comigo e tomou uma para si. Agora queria muito manter a segunda que ainda tenho, mas parece que Deus não as quer separadas e ela vai para junto da irmãzinha!

Mas a doentinha não foi. Ficava deitada paciente e sossegada todo o dia, enquanto a mãe andava fora para ganhar alguma coisa.

alicehaverspeablossomEra primavera e bastante cedo de manhã, precisamente quanto a mãe ia para o trabalho. O sol brilhava maravilhosamente e banhava o chão através da janelinha, e a doente olhava na direção da vidraça mais baixa.

– Que é aquela coisa verde que brota junto à vidraça? Agita-se ao vento!

E a mãe foi à janela e abriu-a um pouco.

– Oh! – disse ela. – É com certeza um ervilhinha que espigou com finas folhas verdes. Como veio parar aqui nesta fenda? Aí tens já uma pequena horta para ver!

E a cama da doente foi arrastada para mais perto da janela, onde podia ver a ervilha germinando, e a mãe foi para o trabalho.

– Mãe, creio que estou melhorando! – disse à noite a menininha. – O sol brilhou hoje tão quente dentro de mim! A ervilhinha medra tão bem! E eu também quero medrar e me levantar e ir para fora, para o sol.

– Oxalá fosse assim! – disse a mãe, mas não acreditava que isso acontecesse. Contudo, junto ao rebento verde, que trouxera alento à criança, colocou um pauzinho para ele não se quebrar com o vento e atou um cordel à tábua e à parte superior do caixilho, para que a gavinha da ervilha pudesse ter algo em que se segurar e enrolar quando crescesse. E assim foi, podia-se bem ver todos os dias como crescia.

– Não pode ser! Já tem flor! – disse a mulher uma manhã, e ficou esperançosa e confiante que a menininha ficasse boa. Veio-lhe ao pensamento que nos últimos tempos a criança falara mais vivamente. Nas últimas semanas tinha-se erguido da cama, sentando-se a olhar com os olhos brilhantes para o seu ervilhal de uma só ervilha. Uma semana depois, a doente esteve levantada por uma hora. Feliz, sentou-se ao sol quente. A janela estava aberta e lá fora havia, completamente desabrochada, uma flor branca e vermelha de ervilha. A menininha curvou a cabeça e beijou suavemente as folhas finas. Foi como um dia de festa esse dia.

– Foi Nosso Senhor que a plantou ele próprio e fê-la medrar para te dar esperança e alegria, minha querida filha, e também a mim! – disse a mãe contente, sorrindo para a flor, como se para um anjo de Deus.

Mas… E as outras ervilhas? Bem, aquela que voou pelo mundo afora, “Agarra-me se puderes!”, caiu na goteira de um telhado, foi parar no papo de um pombo e lá ficou como Jonas na baleia. As duas indolentes mais não fizeram, foram comidas também pelos pombos, e a isso se pode chamar ser de sólida utilidade. Mas a que queria ir par ao sol… Caiu na valeta e aí ficou dias e semanas, na água choca, onde, na verdade, se tornou muito grande.

– Estou ficando tão maravilhosamente gorda! – disse a ervilha. – Assim vou rebentar e volto a crer que nenhuma ervilha pode fazer ou fez mais. Sou a mais notável das cinco ervilhas da vagem!

E a valeta deu-lhe aprovação.

Mas à janela do sótão estava a menininha de olhos brilhantes, com o fulgor da saúde nas faces, e juntou as finas mãos sobre a flor da ervilha e agradeceu por ela a Deus.

– Eu sou pela minha ervilha – disse a valeta.

Hans Christian Andersen

Do livro “Contos de Hans Christian Andersen” – Edições Paulinas

A ocupação de cada um

Ainda é cedo para falar sobre a morte do menino na ocupação da escola ou já deu para perceber que esse negócio está muito errado?

Porque às vezes eu me pergunto se tudo isso ainda tem jeito… Me pergunto se em algum momento os problemas se tornarão tão terríveis que todos vão parar e olhar para trás se perguntando: quando foi que nós nos perdemos desse jeito?

Quando foi que abandonamos a ordem das coisas? Quando foi que deixamos de acreditar que existe uma razão pela qual os filhos devem obedecer aos pais?
Quando foi que nos convenceram que adolescentes podem ocupar escolas como bem entendem enquanto os adultos todos ficam olhando de longe como se nada pudessem fazer?
Quando foi que nos tornamos incapazes de educar, disciplinar e mostrar-lhes o caminho?
Quando foi que permitimos que o canto das sereias de pessoas mal intencionadas os levassem para longe de nós e lhes dissessem o que fazer?
Quando foi que os deixamos à mercê de suas próprias decisões e vontades sem exigir que assumam a responsabilidade por seus atos?
Quando foi eles se tornaram a autoridade?
Quando foi que abandonamos a ordem das coisas?
Quando foi que nós nos perdemos desse jeito?