Valores e Virtudes: Como tudo começou

Eu estou realmente entusiasmada e feliz pelo privilégio de desenvolver um Programa de Formação de Leitores como esse e achei que a melhor forma de explicar melhor como ele funciona, seria contando como ele chegou até aqui. Só Deus cria a partir do nada, nós não. Por isso quero mostrar quantas pessoas e ideias foram somadas para que o “Valores e Virtudes” nascesse.

Tudo começou no final de 2016, quando o Márcio Carvalho, meu amigo e diretor da Escola Municipal Manacá, em Itapecerica da Serra, me desafiou a elaborar um plano de leitura dos clássicos da literatura para os alunos do primeiro ao quinto ano da escola. A intenção do projeto era incentivar a formação do hábito da leitura, proporcionando às crianças o acesso a textos de qualidade, com escrita devidamente elaborada e observando as normas cultas da linguagem – em oposição intencional à tendência moderna de subestimar a inteligência das crianças oferecendo textos exageradamente simplificados e adaptados. Por isso a escolha pelas obras clássicas, que de possibilitam a própria formação do leitor, trabalhando tanto na educação do caráter quanto na habilidade de desenvolver-se intelectualmente enquanto lê, como ensinado por Mortimer Adler, referência muito forte em todo o trabalho desenvolvido aqui.

Comecei então a pesquisar obras que poderíamos usar, e pensar em estratégias que fossem viáveis – porque afinal os professores já têm mil e uma atribuições diferentes e eu não adianta ter ideias bonitas que no final sejam impraticáveis. Pois bem. Em janeiro desse ano, quando realmente resolvemos levar a ideia a sério, percebi que essa abordagem com obras clássicas não é tão simples porque exige um trabalho específico por parte dos pequenos leitores. Basicamente, a capacidade leitora da maior parte das crianças de hoje não lhes permite compreender essas obras. Temos então dois caminhos: 1) oferecer a versão original e deixar que as crianças arrumem um jeito de entender, 2) trabalhar para que elas desenvolvam o nível adequado dessa capacidade leitora, ou 3) adaptar e simplificar as obras, trazendo-as para o nível em que elas estão. Como é fácil perceber, a maior parte das escolas e professores escolhe a terceira opção (tanto que, de algumas obras, foi difícil encontrar nas livrarias o texto integral, porque a grande procura é pelos textos adaptados). Bom, como nunca me conformei com isso, mas também não deixaria as crianças sem auxílio, resolvi tentar o segundo caminho: oferecer um texto com certo nível de complexidade vocabular ou estrutural, mas ao mesmo tempo trabalhar para que os alunos alcancem o domínio das técnicas necessárias para que a compreensão de fato aconteça.

Alguns anos atrás o próprio Márcio, diretor da escola, havia me falado sobre os materiais do Instituto Alfa e Beto. Até então eu desconhecia completamente as teorias e técnicas para o desenvolvimento da fluência de leitura – assim como a maior parte dos pedagogos e professores do Brasil e de outros tantos países, o que é uma verdadeira tristeza. Como desde então vinha estudando sobre isso e aplicando as estratégias com meus alunos, tanto na sala de aula como no trabalho de tutoria, achei que seria interessante incluir no programa essa outra área: o desenvolvimento da capacidade leitora.

Neste meio tempo, o amigo e também pedagogo Igor Miguel me marcou em um post sobre uma palestra do Dr. Mark Pike sobre a influência de C.S. Lewis na educação moral, porque tanto Lewis quanto a formação moral são temas que nos interessam muito na área da educação. E foi pesquisando sobre essa palestra que fiquei conhecendo o projeto Nárnia’s Virtues (Virtudes de Nárnia), da Universidade de Leeds, na Inglaterra, cuja proposta é ensinar as virtudes por meio das Crônicas de Nárnia, num trabalho conjunto com outras instituições que têm investido em pesquisas acadêmicas sobre a Educação do Caráter, que busca oferecer o conhecimento e prática das virtudes.

Educação do Caráter é um tema que me interessa desde meus tempos de faculdade – talvez até antes, porque sempre soube que educar não se trata simplesmente de formar mentes brilhantes. Cada vez mais as famílias, professores e pensadores ligados à área da educação têm se preocupado em buscar uma abordagem que não se limite a trabalhar para que o aluno seja aprovado em vestibulares e concursos públicos e tenha uma carreira de sucesso, mas em prepará-lo para a vida. Enquanto assistimos, impressionados, à decadência moral da sociedade em que vivemos e presenciamos o fim trágico protagonizado por homens e mulheres que não foram capazes de lidar com os problemas, tomar decisões prudentes ou simplesmente assumir suas responsabilidades, percebemos que os diplomas pendurados na parede, notas no vestibular ou a quantia que uma pessoa tem em sua conta bancária não farão qualquer diferença quando ela estiver frente a uma situação que exija virtudes como a coragem, integridade, compaixão ou disciplina.

Nesse ponto me lembrei de um dos projetos que o Paulo Cruz – também meu amigo, e também professor – havia desenvolvido com seus alunos, ensinando as virtudes cardeais por meio de histórias. O foco desse trabalho era a formação da imaginação moral, um tema sobre o qual o Paulo tem estudado e ensinado, com base não apenas no próprio C. S. Lewis, mas também em Tolkien, Chesterton, George MacDonald e Russel Kirk. Trata-se da busca por nutrir a memória com imagens que, extraídas das histórias e experiências vividas, formarão o arcabouço moral que norteará as atitudes da pessoa por toda a vida. Escolhi então quinze virtudes que seriam ensinadas por meio de contos tradicionais, antes que os alunos começassem o trabalho com os livros. E foi assim que o terceiro eixo foi incluído ao programa por meio das aulas de Literatura com o Estudo das Virtudes.

Além das três áreas, decidi deixar claro os valores que norteariam e permeariam todas as atividades do programa. Destes, os mais difíceis seriam dois: a beleza e a erudição. Difíceis porque vivemos tempos em que a beleza é considerada relativa e a busca pela erudição é considerada uma afronta. Embora eu deva ao trabalho do L’Abri e a Roger Scruton minha compreensão de que a beleza realmente importa, creio que só tomei coragem mesmo de defender valores como esses num projeto educacional porque vi isso ser realmente aplicado no Programa AMO de Literatura, desenvolvido por Elizabeth Youmans, que usamos com os alunos do CRE nas aulas de Literatura – e que eu amava tanto quanto as crianças. Foi a Ana Beatriz Rinaldi, a quem tomo a liberdade de chamar de mentora, quem primeiro eu ouvi falar sobre a importância da leitura em voz alta, dos livros clássicos, da erudição e da beleza na Educação. Foi ela também quem me apresentou o Programa AMO e que tem me incentivado para que projetos como esse se tornem realidade em meio ao caos estabelecido pela pedagogia moderna.

Não tenho como explicar como foi o momento em que todas essas influências e ideias se somaram e fizeram sentido na minha mente, mas garanto que foi emocionante. Assim, passei então o mês de fevereiro inteiro escrevendo o Guia do Professor, com a apresentação do programa, fundamentação e explicação das estratégias, e depois de alguns encontros de formação com os professores, no início de março o projeto começou “pra valer”.

O que tem acontecido depois e os detalhes de cada uma dessas áreas eu conto depois, mas estes foram os caminhos que conduziram o Programa “Valores e Virtudes” a seu formato atual. O programa fundamenta-se na convicção de que esta deve ser uma das prioridades da educação escolar: formar leitores. Não somente ensinar a ler, no sentido de decodificar letras, mas ensinar a arte de ler – uma arte que, assim como as outras, requer tanto o domínio da técnica quanto as habilidades de imaginar, encantar-se e pensar. O objetivo final do programa é criar na escola um ambiente fértil que contribua para formar alunos capazes tanto de conhecer o mundo e suas ciências por meio da leitura, como de atuar nele de forma íntegra e plena. Conhecimento que se traduz em vida.

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